Deus é justo?

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Imagem Extraída de: http://blog.cancaonova.com/dominusvobiscum/

Por Marcio Uno

O que significa dizermos que “Deus é justo” e que por ser juiz ele vai “pesar a mão sobre as pessoas”? Qual o sentido dessas sentenças? O que compreendemos sobre o juízo divino quando lemos os antigos registros judaicos?

Estes ainda continuam sendo alguns dos questionamentos que tenho sobre a leitura bíblica e sua interpretação. Como entender um Deus que tudo pode e que requer sacrífícios de crianças, morte dos inimigos, obediência implacável da Lei e, compará-lo com um manso e humilde cordeiro, que está pronto a perdoar, a trazer vida em abundância e se encontra acima de toda Torá? Como conseguir ver em Jesus a imagem de Deus e em Deus, Jesus?

Os livros “Deus mandou matar?” de Stanley Gundry (editor) e “O Antigo Testamento: Uma interpretação radical de Erich Fromm (filho de judeus ortodoxos), trouxeram-me uma nova perspectiva quanto a questão da justiça de Deus.

A Ele criamos uma concepção de que seu caráter é justiceiro e não de que Ele é justo. Creio que as definições para “justiça” não se deve valer pelas mesmas usadas no direito romano, nos conceitos legislacionais dos tribunais. 

A justiça que Deus espera não está na guerra, ira e violência. A causa para que o Senhor seja justo é exatamente ao contrário, por amor. Deus ama, então é justo. Ele não paga o mal com o mal, não realiza seus propósitos com a maldade, não apresenta personalidades dúbias, não há variação nem sombras.

Ser justo é lutar pela preservação da vida. É não aceitar os processos que geram mortes e destruições da criação, inclusive das criaturas. É perseverar pelo e no amor, pela e na liberdade, pela e na igualdade. Assim como escrito está em Oséias 12:6-7 – “Tu, pois, converte-te a teu Deus; guarda a benevolência e a justiça, e em teu Deus espera sempre. Quanto a Canaã, tem nas mãos balança enganadora; ama a opressão.”

Seu instrumento de justiça não é o martelo penal, e sim palavras de vida; sua sentença não é perpétua e condenatória, é da graça, do perdão e arrependimento; sua ação não visa as algemas, grilhões e prisões, luta pela libertação, autonomia e decisão; seu fim não pretende uma infantilização e opressão, caminha para a responsabilidade e salvação.

A imagem da magistratura divina revela-se na vida e na pessoa de Cristo: “Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus…” (Rm 1:17). Frases e chavões carregados de discurso e legitimação religiosa citados no início do texto, só pretende revelar a face de nós humanos, vingativos, odiosos, orgulhosos e presunçosos. Damos palavras a boca de Deus. Usamos seu nome em vão para satisfazer nossas inflamadas paixões. 

“- E como um cristão pode colaborar com um comunista?
– Para mim, os homens não se dividem entre crentes e ateus, mas sim entre opressores e oprimidos, entre quem quer conservar a sociedade injusta e quem quer lutar pela justiça.”

“- O que você quer é o comunismo?
– Quero uma sociedade justa, onde a vida do ser humano socialmente mais insignificante esteja assegurada. O Deus no qual eu creio é o Senhor da vida. Não me interessa se essa sociedade tenha o nome de socialismo, de comunismo, de utopismo ou qualquer outro. Os rótulos não revelam o conteúdo.”

(Texto extraído do livro “Batismo de Sangue – de Frei Betto”, páginas 145 e 146. Momento dos interrogatórios da DOPS – Departamento de Ordem Política e Social – que o autor enfrentou durante a ditadura militar)

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10 comentários sobre “Deus é justo?

  1. Oi Marcio, amei!
    Temos que refletir mais sobre tudo isto!!
    Tremendo pensar que os homens não se dividem entre ateus e cristãos, mas entre opressores e opimidos!!!! Olhemos para dentro de nós mesmos!! Qual tem sido a nossa contribuição???
    Um abraço

  2. Ola marcio.

    Como ponto de partidada desta reflexao socio-teologica, levantarei uma pequena intruçao sobre o tema seguite.

    Em primeiro lugar não devemos apetecer falar de Deus em si. São Tomas de Aquino já ensinava que não e possível anunciar a Deus diretamente, “em si”. Se não compreendermos isso o deus que anunciaremos será mais uma especulação antológica de nós mesmos (lembrando Feuerbach). O ponto de partida deve ser a experiência de Deus na historia. Esta experiência pode ser contemplada na bíblia memória histórica de um povo (Israel) vislumbrando um Deus que intervem na historia revelando-se aos humanos, como uma resposta ao clamor dos inocentes e excluídos. Este clamor é um acontecimento histórico que mostra a tenacidade, como declara Jung Mo Sung, “do oprimido na sua luta pela sobrevivência e pela dignidade humana” .
    Para compreendermos a justiça de Deus não devemos olhar sempre para cima ( céu ) por que ela não parte da transcendentalidade, mais sim da mundanidade.Como refletimos é o clamor dos oprimidos que parte daqui (terra) e não de lá (céu), e este clamor que vislumbra a justiça de Deus, que podemos encontrar no seu reino propagado por Jesus e seus seguidores. O querigma (proclamação, mensagem do reino) é a justiça de Deus num mundo em constante opressão, esta mensagem, boa nova é um “mundo pra todo mundo”.
    Em resumo o clamor dos pobres agita o coração de Deus que responde por intermédio de profetas que denunciam a injustiça e opressão protestando contra uma sociedade fragmentada. Com isso o Reino de Deus pode ser um protesto, um grito, uma libertação.

    SUNG, Jung Mo. Deus Numa Economia Sem Coração: Pobreza e neoliberalismo um desafio a evangelização. São Paulo, Paulus, 1992, pg. 20

  3. Texto maravilhoso.
    Aprovo e apoio qualquer causa que diga respeito a justiça para com os oprimidos por uma sociedade gananciosa e corrupta, principalmente quando usam Deus pra defender suas conveniências.
    Esse nosso sentimento tem a ver com a ira de Jesus ao entrar no templo expulsando cambistas que exploravam os menos favorecidos.
    Fantástica tambem a citação do Moises Alves.

    abss

  4. Marcião meu irmão,
    Que verdade abençoada!
    Concordo plenamente com seu texto e uso de suas palavras pra explicar esse Justo, “Ser justo é lutar pela preservação da vida”.
    Infelizmente os homens preferem a este Deus Todo-Poderoso, maquiavelico, q gera tristeza, dor, morte,…
    E eu continuo com o Deus da graça, da vida, do amor.
    Que possamos conhecer mais esse pai, e levar este justo a todos os cantos da terra!

    osculos,
    thiago.

  5. Sim, Deus é Justo! Sua Justiça é o seu amor, amor esse refletido através do sacrifício de Cristo. AQUELE o recebe já está Justificado e Julgado.

  6. FUI CONTEMPLADA E MUITO COM A FALA DE JONAS RODRIGUES (SIM DEUS É JUSTO! SUA JUSTIÇA É O SEU AMOR.) NÃO PODEMOS ESQUECER O QUANTO ELE É “BENEVOLENTE”
    TODOS ESTAMOS SENDO CHAMADOS PARA FAZER A NOSSA PARTE, POIS SOMOS INSTRUMENTO DO SENHOR(É ASSIM QUE ME SINTO), E DEVEMOS MODIFICAR ESSAS PESSOAS “OPRESSORAS PARA QUE NÃO MAIS OPRIMAM NINGUEM”.

  7. Olá Marcio quanto tempo…
    Lendo o seu texto reafirmei algo em minha mente: “É claro que Deus não é justo, pois ele é o Deus da graça”.
    Ele não é justo aos meus olhos injustos preso ao tempo e ao pecado…Afinal de contas quem se daria no lugar de injustos? Eu não. Estou certo e feliz por Deus não ser justo aos meus olhos ao meu modo de viver a vida, as vezes dói e questiono também certas justiças divina aí eu percebo que estou falando coisas que eu não sei.

    Um abraço.

  8. Márcio,

    Um belo texto e de profundidade. Na realidade, lemos tanta merda hoje na internet, que quando nos deparamos com coisas profundas assim, devemos parar e refletir. Obrigado por ter comparilhado isso, e espero que nunca pare de nos brindar com textos tão significativos como esse.

    Um abraço do seu irmão: Marcelo Caldas.

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