Graça ou Desgraça?

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Era Abril de 1984 (ano em que nasci). Milhares de pessoas saíam às ruas da capital paulista com faixas, camisetas, pinturas no rosto e em grande coral se via e ouvia a frase “Diretas Já”. Conforme notícias da impressa na época, foram 06 meses de lutas e reivindicações pelo voto direto, além de vários conflitos e mortes durante todo o período da ditadura militar. O evento marcava um início de um processo à democracia.

Muitos cidadãos lutaram pela liberdade política a qual temos hoje. Vários indivíduos deram suas vidas, outros se feriram, foram aprisionados, pagaram um alto preço pelo “governo do povo”. Alguns dos que passaram tempos de repreensão sabem qual o valor tem a conquista da livre expressão e o direito de votar e ser votado. Outros, porém, se esqueceram da vitória, não se lembram (ou fingem) quão duro foi a peleja e não atribuem a importância naquilo que brigaram. Transformaram protestos em falácias e discursos hipócritas.

Junto com esse último grupo, temos uma nova geração (a que faço parte) que se demonstra apática, que nasceu em meio a transição e a liberdade política. Para essa nova juventude falta a compreensão da história do nosso país, das raízes do passado para entender o presente. Parece que a maioria dos jovens não demonstram o interesse pelo social, pela política, pelos direitos, pelas lutas de igualdade e pelo o que é humano. Incluo-me infelizmente aqui.

A bem da realidade é que, junto com a conquista da liberdade, também acompanha um descaso público.

Transcrevo um trecho que corrobora com a afirmação acima, tirado do texto “Cura para uma sociedade enferma” de Alderi Souza de Matos, publicado na Revista de Novembro/Dezembro da Revista Ultimato: “Outro mau caminho de que devemos nos arrepender é o desprezo dos instrumentos da democracia. Os cidadãos precisam utilizar a arma construtiva do voto de modo consciente, expulsando da vida pública os políticos desonestos e incompetentes e prestigiando aqueles que têm compromisso com a verdade, a justiça e o bem comum.”

Comparo o processo político citado, com o que demonstra acontecer diante da liberdade que temos em Cristo Jesus e o Evangelho da Graça. Já não fazemos parte da Lei, não somos salvos por regras e por alguma imposição humana ou divina, nem por aquilo que fazemos, mas pelo amor incondicional de Deus para conosco.

Através de Cristo, fazemos parte de um momento que muitos chamam de Dispensação da Graça, porém ao mesmo tempo que não somos sufocados por leis que escravizam e que somente denunciam nossos pecados, devemos cuidar dessa liberdade que Deus nos concede.

A Graça nos requer privilégio e também responsabilidade. Em I Pe 2:9, somos chamados de sacerdócio real, povo de propriedade exclusiva de Deus, nação santa e raça eleita, mas tudo isso para um propósito: “a fim de testemunhar a virtude daquele que nos chamou das trevas para a maravilhosa luz”. Dá-nos a livre escolha, porém exige que tenhamos o domínio próprio, a sabedoria, moderação, limites. A liberdade não deve ser confundida com libertinagem.

É necessário recordarmos de onde viemos, qual era nosso passado e destino, lembrar que vivíamos aprisionados pelos nossos delitos e nunca atingiríamos a salvação por esforço próprio. Compreendemos melhor a Graça de Deus mediante o conhecimento da Velha Aliança. Assim, saberemos qual o real valor do livre-arbítrio e usaremos com consciência e dignidade.

Para isso, utilizo um outro texto da Ultimato (pág. 30, sobre “O mistério da iniquidade e os escritores “nefandos” dos séculos 18 e 19″) que aborda esse assunto: “A pessoa comprometida com o “mistério do evangelho” não deve ser proibida de ler livros nem de ligar a televisão. Ao contrário, deve agir como o sábio: “Ele escutou (ou leu), examinou (ou pesquisou) e colecionou (ou selecionou) muitos provérbios” (Ec. 12:9). É exatamente isso que Paulo aconselha aos tessalonicenses: “Examinem tudo, fiquem com o que é bom” (1 Ts 5:21).

Por fim, além de cultivar essa autonomia que possuímos, não podemos viver em apatia e num conformismo pessoal e social. Que desejemos mudanças desde “a começar por mim” até na metamorfose coletiva. Que não apaguemos o espírito por revolução e que a amnésia não tome conta do espírito protestante no qual nascemos (Leia aqui o texto de Lucas Lujan “O abandono do espírito protestante”).

Graça ou Desgraça? Eis a questão. 

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6 comentários sobre “Graça ou Desgraça?

  1. mundoinvisivel

    Com relação a parte politica eu vejo a mesma coisa, o jovem de hoje tem aversão quando a tal palavra surge em uma conversa, parece que quem vai falar é um chato, um otário, um zé ninguém, que está discutindo algo tão ‘obsoleto’, “e convenhamos, tem muita coisa melhor pra falar, não e?”… triste, mais é. Eu também assumo que faço parte dessa geração “curtição”, não vou dizer que já acordei, mas aos poucos estou acordando, me desviando de quem tenta me fazer de massa de manobra.

    Com relacao a parte”gospel” do artigo 😀 … você transcreveu algo, no final, em que é o segundo pilar da minha fé: “Examinem tudo, fiquem com o que é bom”.
    O primeiro, lógico, é o Amor.

    Continua escrevendo, cara
    😀

    flw ai, zézin!
    inté+!

  2. Andréa

    É Marcinho…penso que para termos esse espírito
    protestante devemos primeiramente reconhecer isso como um ideal em nós.
    Lutar pela igualdade social não é apenas um dever, é o sentido!
    Bjs
    Deia – Betesda

  3. Marcio,
    muito bom o texto. Que nossas lutas pela igualdade não seja apenas um questão social, mas sim o entendimento que o Reino de Deus deve ser implantado já e agora entre nós. Mesmo com a esperança do porvir, ainda tenhamos a utopia de querer ele inteiramente entre nós, ainda que saibamos que ele será parcial.

    Igualdade entre os humanos para mim não é assistencia social, como bem enfatizou a Deia, mas sim a proposta principal do evangelho.

    Abraços
    Suênio
    Ps.: quando quizer fazer aquela conversa me avise.

  4. Excelente texto. A analogia, muito inteligente e coerente.
    Precisamos entender o espírito… Correr atrás do seu conhecimento…Encarnarmos os ideais e as utopias…Conhecer a Graça, e não só ter a informação sobre ela.

    Abraço

  5. Pingback: Post mais comentados de 2007 « Caminhada & Missão

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