Renda, Empresa e Eclésia

Por Marcio Uno

Recentemente, foi divulgado pelo Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Patrus Ananias, o reajuste de 8% no valor dos benefícios do Programa do Governo Federal “Bolsa Família”. Também o Brasil recebeu a triste notícia da morte da antropóloga e ex-primeira dama, Ruth Cardoso, uma das precursoras desse mesmo programa citado.

Os programas de transferência de renda para famílias em situação de vulnerabilidade social foram avanços enormes quanto a questão da pobreza e da assistência e desenvolvimento social no país, mas sabemos que ainda há muito para se realizar nessa área.

Em 1908, o Governo Britânico foi o precursor no assunto dos programas de transferência de renda e já por volta dos anos 30 e 40 do século passado, vários países da Europa passaram a adotar políticas com esse perfil. É somente na década de 70 que a questão começa a ser discutida com mais ênfase no Brasil e com a apresentação do Projeto de Lei nº 80/91, do Senador Eduardo Matarazzo Suplicy, que a política da renda direta ganharia visibilidade e surgiriam vários debates em torno desse assunto.

Em 1995, temos a implantação definitiva desse projetos e a partir daí viriam os avanços. Atualmente temos diversos programas, como podemos citar o “Bolsa Família”, “Agente Jovem” e “Pró-Jovem” do Governo Federal e “Renda Cidadã” e “Ação Jovem” do Governo Estadual em São Paulo, além dos outros não citados realizados pelos municípios. Começaram com um caráter meramente assistencialista, embora timidamente vão se trabalhando com a questão de geração de renda e de desenvolvimento sustentável.

Segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), divulgado no número 312 da Revista Ultimato (p. 14), no ano de 2006, o Governo de Lula gastou com todos os programas sociais cerca de 21 bilhões de reais, em contrapartida, aproximadamente esse valor é o total de lucros obtidos de 4 entidades financeiras no Brasil (Itaú, Bradesco, Unibanco e Santander). Enquanto o Bolsa Família atende por volta de 11 milhões de famílias com o valor de até R$ 182, temos somente 4 “famílias” desfrutando do mesmo valor de renda total, ou seja, ainda há um grande abismo social para se enfrentar.

Mais do que programas sociais, creio que precisamos de uma cultura que estabeleça uma consciência social, de distribuição de renda. Começa-se a se falar muito em responsabilidade social, aparecem projetos e programas de desenvolvimento regional e sustentável, criação de ONG´s e expansão do terceiro setor, incentivo cultural das empresas, mas que para muitos ainda é uma questão mais de interesse por marketing, visibilidade e isenção dos impostos, do que uma luta pelas classes sociais desfavorecidas.

Além de repasses de verbas, de programas emancipatórios, necessitamos de pessoas, empresas e principalmente igrejas engajadas pelas causas da injustiça e pobreza. Nós, como corpo de Cristo deveríamos dar sinais e demonstrar o “Reino de Deus” para a sociedade, assim como nosso Mestre nos ensinou quando esteve entre nós. Se por um lado empresas ainda “engatinham” na questão social, a instituição religiosa começa a “desaprender a andar” uma vez que, no passado, foi uma das maiores militantes na assistência ao Brasil com a criação de escolas, seminários, hospitais, orfanatos, asilos, etc.

Não descarto muitas iniciativas que igrejas fazem e de que têm se articulado em redes sociais, como por exemplo a RENAS – Rede Evangélica Nacional de Ação Social; Não desmereço todo um trabalho que entidades, sejam de que credo for, fazem no Brasil; Porém, também não posso fechar os olhos para uma crescente ala no mundo evangélico que tem valorizado lucros financeiros, construções de enormes “palácios gospel” e a entrada na política em defesa da sua instituição.

Igrejas estão virando empresas e têm se esquecido do verdadeiro jejum proclamado por Isaías: “Acaso não é este o jejum que escolhi? Que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo? e que deixes ir livres os oprimidos, e despedaçes todo jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desamparados? Que vendo o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” (Is 58:6 e 7)

Sei que não somos os verdadeiros super-heróis nem os últimos profetas que salvarão a humanidade, porém podemos fazer muito, a começar por mim. Que lutemos contra nossa tendência ao individualismo e ao conformismo.

Termino com um trecho do texto “A mui piedosa esquerda cristã” do bispo anglicano Robinson Calvacanti: “A inconformação com os males do presente século, o compromisso com os valores do reino de Deus, a promoção da liberdade responsável, da democracia representativa e participativa, da justiça social…, continuam a ser o ideário de milhares de nascidos de novo, piedosos e ortodoxos, no exercício responsável da cidadania, orando “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.”

Seja essa nossa oração!!!

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