Bate Papo que transforma

Por Marcio Uno

Faz um tempo que li o livro “Oração: Ela faz alguma diferença? de Philip Yancey. Essa obra fez-me (re)formular conceitos sobre o relacionamento com Deus diferentemente do que estava acostumado a ouvir nas diversas respostas que as religiões formulam quanto ao assunto. 

Alguns dias antes de sair de meu último emprego, tive a oportunidade de ter uma experiência sobre o “falar com o divino”, se tornando uma aplicação do que tinha refletido e um momento que marcou minha caminhada de vida. Aconteceu que, num período de crise no estabelecimento em que trabalhava, algumas pessoas, inclusive eu, se juntaram para orar pela situação crítica no qual passávamos. Embora acharmos que a circunstância poderia se reverter através do nosso clamor, tivemos uma surpresa.

Foi num dia em que nossa diretora estava em grande desespero e chamando-nos, pediu para que fizéssemos uma prece a Deus. Naquele momento, vimos ela se ajoelhar, abraçar a todos e chorar como uma criança. Todo aquele orgulho, posição hierárquica e social foi se desmoronando. De mãos dadas e cada um fazendo sua reza individual podemos sentir um clima de união, companheirismo e a presença de Cristo invadindo aquele lugar.

Não tivemos o problema resolvido, pois embora acreditarmos que haveria uma interferência divina, muitas coisas necessitavam do trabalho humano. Nada aconteceu? Não, as questões aflitantes se perduraram, porém a partir daquela tarde o grupo ficou mais unido, coeso, sensível. Começamos a se preocupar com nossos colegas, compartilhar nossos problemas, juntar forças e andarmos lado a lado. O coleguismo foi pouco a pouco se transformando em amizades; O individualismo em coletivismo; Aquela presença do Espírito Santo no momento em que orávamos ao Pai, era a mesma que nos motivava diariamente. Justamente era disso que precisávamos!!!

As religiões e a busca contemporânea têm se pautado na previsibilidade da vida. Em tempos de desenvolvimento técnológico, do cientificismo apurado, no mundo de mudanças rápidas e bruscas na sociedade, de instabilidades na economia e na política, nunca o controle da vida foi tão almejado pelas pessoas.

O mundo evangélico caminha para o mesmo trilho pois tem-se a impressão de que palavras faladas por autoridades espirituais mudam situações e circunstâncias; que a garantia para os frequentadores dos cultos será a estabilidade; que dar o dízimo trará prosperidade e tranquilidade financeira, porém vemos que a lógica da vida não é tão simples como se pensam.

Sim, as palavras também podem trazer efeitos nas vidas. Podemos machucar pessoas com certas colocações, desprezar outras com sentenças ríspidas, “matar” emocionalmente alguém. Não quero desprezar a questão do poder das letras, mas também não lhes atribuo poderes místicos. Considero que as orações – entenda como frases – podem atingir dimensões muito mais reais, concretas e humanas e não serem conceituadas com um abecedário de esquizofrenia transcendental.

Prece, reza, meditação, reflexão. Ela tem vários nomes, mas cada vez mais é usada como um utilitarismo religioso, como uma troca mercantil, como palavras mágicas e autoritárias para a resolução das assolações da vida.

Esquecemos de que a oração é estabelecer um diálogo com o criador envolvendo o falar e escutar; Perdemos a sensibilidade de “ouvir” a voz de Deus, de expressar nossas amarguras, frustrações, alegrias da vida, de saber se relacionar com o Todo-poderoso e nesse envolvimento ser modificado; Transformamos o Deus Presente num Gênio da Lâmpada Mágica; Resumimos uma conversa com Deus num tal de pedir, pedir e pedir. 

Proponho outra visão para a oração: Ao mesmo tempo que falar com o transcendental não geram palavras vazias e insignificantes, também nem sempre possuem forças para mudar toda e qualquer situação do homem. Relacionar-se com o divino é misterioso, transforma nossas vidas, nossa visão, nosso caminhar. Envolve uma dialética entre o Criador e a criatura, onde o oleiro modela o vaso e este tenta ensinar o artesão. Afinal, conversas são conversas.

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