Mãos Sobrepostas

Por Marcio Uno

Acordou assustado. Desta vez não foi culpa do despertador e, após um grande berro de sua mãe, levantou-se depressa.

Correu para ajeitar seu material, pegar sua mochila, calçar os sapatos, se arrumar e sair de casa. Não poderia se atrasar, mais uma vez não. Sua mãe encontrava-se furiosa, agitada. Ela segurou em seu braço com tanta força que deixou marcas de dedos naquela frágil pele.

Segurou-o pela mão e a passos largos, o pequeno tenta acompanhá-la quase que correndo. Sendo arrastado pelo tranco que a mãe de vez em quando dava, viraram a última esquina e começaram-se os tropeços. Levantou-lhe, resmungou algo e continuaram andando rápido.

Naqueles últimos metros, o menino olhou para todas as direções tentando encontrar algum amiguinho que estivesse na mesma situação também. Frustrou-se, pois infelizmente a rua estava vazia. Pensava na bronca que iria levar, na culpa que já sentia se não conseguissem chegar a tempo. Olhou para o alto. Seus olhos encontraram uma face irritada, cheia de preocupação, que olhava fixamente para o portão. O que seria dele daqui há alguns segundos?

Avistaram o moço que estava junto a porta e quando este a fechou, a mãe gritou (um pouco mais alto daquele primeiro que o acordou) e bateu na porta com as mãos abertas: “Espere, espere!!!”. O rapaz olhou para fora, contemplou as expressões faciais da mulher e seu sorriso amarelo, mediu-a e avistou o menino ofegante que já começava a transpirar.

Entrou. Quando colocou o primeiro pé no estabelecimento, suspirou de alívio. Recordara das últimas vezes que não conseguiu chegar a tempo e que foi apanhando desde aquela esquina até chegar em casa. Olhou para trás e viu a mãe gesticulando com aquele homem. Na pressa, nem se despediram.

Caminhou naquele imenso pátio vazio pensando na noite passada quando apanhou por não ter completado aquela difícil tarefa. Imaginou qual seria a zombaria dos amigos de classe. Outra vez não. Como o seu mestre reagiria quando respondesse que mais uma vez não tinha entendido nada sobre a matéria? Aliás, nem respondera e há tempos nem perguntara, pois seria mais ridicularizado do que já era.

Subiu as escadas com muita dificuldade, ainda sentia dores. Deu de frente para a porta fechada daquela sala. Já se ouvia a voz rouca do professor tentando controlar aquele emaranhado de burburinhos que se ecoavam pelo corredor. Pôs a mão na maçaneta, pensou. Queria retornar, voltar ou ficar esperando do lado de fora a aula terminar. Respirou, abriu a porta e entrou.

Olhou ligeiramente para o professor. Abaixou a cabeça e andando rápido foi sentar no fundo da classe, lugar onde sempre ficava. Nesse pequeno trecho, seus amigos davam risadas, perguntavam sobre o que tinha acontecido, qual o porquê do atraso e ironicamente se diziam: “De novo!!!”. As gargalhadas eram fatais.

Sentou. Abriu o caderno. Ainda cabisbaixo, viu que o professor caminhava em sua direção. Ficou com medo. O que será que lhe sucederia? Mais uma bronca estaria por vir? Já estava tão acostumado que nem se esforçaria para argumentar.

O professor com a mão estendida, pediu que lhe mostrasse a lição. Seu coração gelou, a mão transpirou. Naquele instante, toda a sala estava quieta (momento raro aquele), olhando para trás, atenta para um previsto desfecho vexatório. O mestre levantou o caderno, ficou contemplando os riscos, algumas pinceladas do lápis e uma folha bem gasta, quase que rasgada pelo movimento da borracha.

Ainda com a cabeça baixa, o menino aguardava outra reprovação na vida. Abaixando o caderno e colocando-o na mesa, o tutor pediu a ele que segurasse o lápis e, sobrepondo sua grande mão com a menor, escreveu uma palavra. Imediatamente, o menino levantou seu rosto e deu-lhe um sorriso de fôlego.

O professor se ergue. A sala se volta para frente. Fazendo o caminho de volta com as mãos para trás, anda em direção ao quadro negro e rompe o silêncio com uma sentença: “Pois bem, vamos recomeçar”!!!

Para o pequeno Rafael, quão divino foi aquela aula….Nunca mais esqueceria o que aprendera naquela manhã!!!

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5 comentários sobre “Mãos Sobrepostas

  1. malu

    Gostei bastante, Márcio!
    Todavia, acho que poderia dar uma dica sobre qual palavra o professor escreveu, pois, afinal, a atitude do professor foi diferente da habitual. Como assim? Ele mudou repentinamente? Por quê ?
    Não acha que seria interessante explorar mais a “sobreposição das mãos” ?

    malu

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