Secas Vidas Humanas

Por Marcio Uno

Minha proposta de vida é alcançar um elevado objetivo: tornar-me humano, humanizar-me. Desafios são tarefas árduas, requerem trajetórias, não comportam imediatismos, apresentam obstáculos. Enfrento uma peleja diária com o feroz inimigo da minh’alma: eu mesmo.

Caminhos são estreitos. Na Biologia, somos classificados como pertencentes a espécie do homo sapiens, embora a tendência é a da desumanização do ser. Afastar do que é humano gera um processo de degradação, quer seja manifestar a animalização ou almejar a divinização do homem.

Graciliano Ramos escreveu a clássica obra “Vidas Secas”. Na paisagem do sertão nordestino, o autor descreve a decadência humana diante da pobreza, uma identidade deturpada. Fabiano, juntamente com sua família, são caracterizados como animais: falam pouco, resmungam, brigam, xingam, sobrevivem. Uma integrante do lar considerada a mais humana, solidária e sensível dentre todos, é a cachorra Baleia. A narrativa enfatiza a inversão das naturezas entre homens e animais.

As descrições no conto O lixo, de Suênio Trindade Alves, se assemelham quanto às indagações, afirmações e dúvidas de Fabiano, personagem de Graciliano. Este, no mesmo instante que afirma ser um homem, quando volta a olhar sua realidade, corrige dizendo: “Você é um bicho, Fabiano”. Aquela criatura, em algum momento se confunde com suas atitudes apresentadas pela bruta vida.

Opondo-se, também há algo perigoso e descaraterizador de indivíduos. Achar-se ser um “deus” e detentor de todo poder, cria-se uma distância da verdadeira identidade. Como ilustração, podemos citar o filme “Todo Poderoso”, encenado por Jim Carrey, no qual o jornalista Bruce Nolan, chateado com a vida passa a resmungar com Deus e este lhe oferece os poderes eternos. Por fim, Bruce admite que ser Deus não é facil e está visivelmente patente que ele se utilizou das prerrogativas metafísicas somente para a satisfação de seu ego.

A religião é propícia para tal questão. Ela sempre estimulou os homens a buscar ser o “Ser”, atingir a perfeição, ter o poder, divinizar-se. Evangélicos, mais do que nunca, montam um discurso triunfalista, arrogante e autoritário. Na história da igreja é perceptível que, vários conflitos entre determinados povos e nações se deu através do argumento religioso. Podemos citar, por exemplo, a Ruanda entre hutus e tutsis, as Cruzadas (cristãos e muçulmanos), a França com os Huguenotes (calvinistas), a Irlanda entre católicos e protestantes, a guerra santa do século XXI.

Ainda há brigas para alcançar a religião, a doutrina e a teologia perfeita, para ser o próximo integrante do rol de membros dos bilionários do mundo, para se elevar diante das pessoas e desprezá-las, para ter o controle do mundo e o futuro nas mãos, para possuir cargos, posições, reconhecimento público e fama. A lógica do narcisismo invade e é permeada por toda a história humana.

Somos todos tentados, ele também foi. Ofereceram para o Nazareno todas as riquezas e poder deste mundo, todo o prestígio e glória da vida, mas o “Todo Poderoso” optou pela “kenosis”, pelo esvaziamento, por escolher ser pobre e frágil dentre os homens. Passou pelo sofrimento, angústias, dores, lamentos, injustiças impostas pela vida e, mesmo diante das circunstâncias, não se tornou amargo, duro, vencido, áspero, violento. Rejeitou se entregar tanto para maldade quanto para divindade, ensinou como ser homem.

Estou confuso: Há distinção entre o que é animalizado e endeusado? Parecem que ambos se fundem. Ando numa linha tênue, na corda bamba do alto de edifícios. Equilibro para não ser tentado nas secas vidas humanas. Preciso de pessoas, pois quando tropeçar, há vidas que não me deixará sucumbir no abismo da prepotência ou do vazio existencial, e vice-versa, até que juntos, alcancemos o alvo que nos inspira: ser exemplos de humanidade.

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3 comentários sobre “Secas Vidas Humanas

  1. margaret

    Querido Marcio. ainda hoje pensava que especialmente na cidade grande,como São Paulo, agente se perde no meio de uma multidão apavorada que corre sem parar, e muitas vezes sem pensar para onde vai.
    Parece que nossa vida não faz diferença.(Porém sabemos que faz!)
    Quero que meus filhos vejam que fazemos diferença, sim! E a diferença está em estarmos ligados na Videira verdadeira que renova em nós a seiva, para que não venhamos a viver VIDAS SECAS,mas para que assim, possamos dar muitos frutos, frutos de paz, alegria e amor.
    Um abração

  2. Thaís Campos

    Amei seu texto meu amor,
    não apenas por sua reflexão, mas porque te vejo em teus escritos.
    Que ser humano, seja um tratado de nossas vidas!
    Beijos.

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