Do púlpito às urnas

Por Marcio Uno

Mais uma eleição se aproxima. Neste final de semana, eleitores brasileiros escolherão os prefeitos e vereadores que governarão durante quatro anos pelas “cidades tupiniquins”. Durante a história da igreja, encontramos algumas das experiências, boas e ruins, cometidas por essa instituição quanto sua participação no processo político.

No século anterior, temos um dos períodos mais sangrentos da memória mundial, o que é impossível ser esquecido: o Nazismo. Comentei um pouco sobre esse movimento no meu texto “Controle é Poder?”, mas agora quero abordar especificamente como a igreja cristã se comportou diante do trágico fenômeno ocorrido.

Hitler, no começo da década de 30, traz seu projeto político de dominação da Alemanha (raça pura) juntamente com promessas feitas para a igreja evangélica alemã, baseando-se numa antecipação do milênio através do estabelecimento de um suposto Reino de Deus, sendo liderado pelo ditador. Influenciados pelo discurso hitleriano, muitos protestantes luteranos e reformadores alemães apoiaram o Nazismo e acreditaram cegamente que essa politica favoreceria o surgimento da Igreja do Reich Nacional e Socialista. A fé de muitos estavam alicerçados no “Evangelho Segundo o III Reich”, como mesmo definiu João Tomaz Parreira.

Fato é que, um dos maiores apoiadores religiosos desta ação política foi o Movimento dos Cristãos Alemães (Deutsche Christen – DC). Após a tomada do trono, algumas pessoas se frustraram, porém tardiamente. Na verdade, Hitler declarou que ele queria realmente era inventar uma nova concepção de mundo, pois cria na decadência do Cristianismo.

No meio desse impasse, surge então alguns grupos que se levantam contra o governo nazista e, em 1934, na cidade de Barmen, formulam uma Declaração Teológica, redigida pelo teólogo Karl Barth, expressando um posicionamento dos evangélicos da Igreja Confessante diante da ideologia do nacional-socialismo. Também temos, como opositor do Nazismo, pessoas como Dietrich Bonhoeffer, o teólogo que lutou bravamente e após ser preso, morreu enforcado pelas forças da suástica alemã.

Outro acontecimento que gostaria de comentar é sobre a ditadura militar no Brasil. Infelizmente não há dúvidas de que o golpe teve apoio da maioria da ala evangélica do país. Oficialmente, somente temos a Igreja Luterana que se pronunciou contra o movimento vigente.

O sociólogo Paul Freston, no seu texto “Protestantismo e Democracia no Brasil”, diferencia as Igrejas Católicas e Protestantes quanto a atitude tomada por ambas diante do domínio militar. Enquanto a primeira se transformou na defensora da democracia, a outra foi vista como sustentadora do regime.

Também, o sociólogo Gedeon Alencar, em entrevista a Revista Eclésia (Março de 2006), confirma essa afirmação quando indagado se a igreja evangélica tem influenciado a cultura brasileira: “Um exemplo claro foi sua postura diante do golpe militar de 1964. No início da ditadura militar, todas as igrejas evangélicas, como batistas e presbiterianas, mandaram telegramas para o General Castelo Branco, um dos líderes do movimento e que se tornou Presidente da República, parabenizando-o pelo golpe. Eles estavam certos de que aquilo era direção de Deus, mas anos depois a gente viu no que deu.”

Ainda bem que nem todos se prostraram nesta adesão. A esperança é que sempre na história há hereges, rebeldes, subversivos, aqueles que andam na contramão da perversidade, violência e maldade. Neste hall, podemos citar os pastores Paulo e seu irmão Jaime Wright, o ex-presbiteriano Rubem Alves e diversos movimentos latinos como o surgimento da Teologia da Libertação no catolicismo. Citamos a coragem de Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, do mártir Tito de Alencar Lima (Frei Tito), de Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), da Igreja Progressista e de outros frades que brigaram pela liberdade política.

É devido a luta destes cristãos e de tantas outras pessoas que conquistamos a tão sonhada democracia. Resta-nos saber, no dia 05 de Outubro, o que a Igreja Cristã fará com seu poder na urna. Como mesmo escrevi no texto “A política dos crentes”, será que promoveremos um candidato para o simplório favorecimento eclesial e por uma politicagem ou almejaremos a representação de pessoas dispostas a caminhar noutra direção, que valoriza a justiça, integridade e militância social?

Entre erros e acertos da Eclésia, a resposta para as questões acima serão reveladas através dos resultados das nossas escolhas. Cabe-nos a responsabilidade de não nos vendermos, de não ser ludibriados com propagandas e discursos autoritários, ufanistas e messiânicos. É necessário muita coerência e humanidade para dialogar numa sociedade ferida e desiludida, mas esperançosa.

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3 comentários sobre “Do púlpito às urnas

  1. Gilmar Campos

    Boa Tarde meu querido e amado Marcio Uno , quanto tempo em !!! Gosto muito de ler seus textos , são tão expressivos e cheio de comprovações cinetificas e históricas , mas vale lembrar da importância do lado esperitual de tudo isso . Cada homem será julgado por suas ações positivas e negativas talvez não dará tempo que pesquisarmos a história e culpar o outro como Adão fez com Eva . Bom queor te dizer que este teu texto é muito bom mas é pessimista , a Politica mundial é baseada na exploração , na riqueza e no poder e isso faz com que homens de DEUS caiam em armadilhas , mas isso não significa que devemos desacreditar que um homem de DEUs não pode ser um grande líder e que possa estar napolitica , acreidto sim que nós podemos estar na politica sem cair para o lado cruel de tudo isso e temos bons exemplos , como Missionária Dionisia Luvizotto aqui em Osasco , ela tem sido um grande exemplo de lider politica e na igreja , Luter King e muitos outros que eu poderia citar pra você .
    Quero que pense sobre isso , você mesmo poderia ser e é , um grande líder , formador de opinião e é cristão , só as vezes mistura as coisas e parece se esquecer do lado espiritual de tudo isso . Vote naqueles que realmente se declaram cristão , que querem mudar ou tem idéias messiânicas , mas não deixe de acreditar que um cristão pode mudar o mundo levando e pregando o evangelho e sendo líder de nações para acreditar que a politica é para o homem do mundo da história ou ao menos aqueles que a pesquisa mostra que vai ganhar e todos votam achando que o que está vendo na mídia é o que é real . Não me lembro agora do nome da Pastora Quadrangular aqui do interior , A cidade é abençoada , quase 50 % da cidade estão ou passaram pela Quadrangular e até o Prefeito é da Igreja Quadrangular , a cidade é prospera e não se paga ônibus lá e muitas outras coisas ., vou me lembrar e te falo .
    Um dia aconteceu uma coisa na minha igreja que me marcou muito :
    Um irmão com brincadeira boba disse ao outro ;__ Olha uma vaca voando e o outro olhou e ele disse :
    ___ Nossa voc~e olhou que trouxa !!!
    O irmão sabio respondeu :
    __ Eu prefiro acreditar que uma vaca voa do que saber que um homem de DEUS mente .

    Te amo Márcio , você é um grande irmão ,mas cuidado para deixar de acreditar em homens de DEUS , pois eu acredito muito em você e Jesus mais ainda .

    te amo tenha uma boa tarde .. Gilmar Campos ….

  2. malu

    Olá, Márcio!

    Certos temas são muito difíceis de serem tratados. Despertam as mais inusitadas opiniões. No mais das vêzes, são os assuntos que mais precisam ser tratados com espírito crítico. Não se intimide. Como você mesmo aponta, é a própria história que mostra quantas barbaridades já foram feitas em nome de DEUS. Não podemos, nunca, deixar de denunciá-las. Faz parte da missão de todo cristão. Quanto aqueles que a praticam, ou são condecendentes, o que devemos pensar? Quem, neste mundo, tem autoridade para falar EM NOME DE DEUS? Quem, realmente, luta por um mundo mais justo e feliz, ou quem é eleito por meia dúzia de votos?
    Muitas vezes eu me questiono, Márcio, o quanto somos pretensiosos quando queremos falar em nome de Deus. Não sei…
    Torço para que você não perca essa sua capacidade de refletir sobre a realidade da vida e do mundo em que vivemos.

    malu

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