Da militância às ONG´s

Por Marcio Uno

“Quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista.” – Dom Helder Câmara

Frei Betto , em seu debate “Da militância às ONG´s: Utopias perdidas ou atualizadas?” realizado na PUC (Pontifícia Universidade Católica), abordou uma trajetória desde a ditadura militar no Brasil até chegar na questão mais recente sobre o terceiro setor, tendo como referência os movimentos sociais.

É muito interessante notar a ênfase que o palestrante deu sobre como o papel da igreja cristã (mais especificamente a Católica) e sua influência foram importantes propulsores para inspirar e apoiar organizações sociais no período citado e também demonstrou quais foram os desdobramentos dessa ação.

Para melhor exposição didática, Betto dividiu o momento em três épocas principais: Ditadura Militar e do Movimento Estudantil, Pós-Ditadura e Pós-Constituinte. Gostaria de compartilhar essa caminhada a seguir.

Para a época da Ditadura Militar, temos como cunho característico a força da Igreja e do Movimento Estudantil. Entre os anos 60 e 70, nasce um novo modelo pedagógico chamado de método Freiriano (de Paulo Freire), em que a tríade do aprendizado se dava na dialética entre Texto-Contexto-Pretexto, ou seja, o ensino se constrói partindo da realidade e do conhecimento prévio que cada indivíduo vivencia e possui.

Essa nova concepção pedagógica favoreceu e foi uma das matrizes da Teologia da Libertação, ligando a teoria bíblica com a prática na vida das comunidades e seus núcleos eclesiais. Algo também que contribuiu para a nova proposta de formulação da Igreja Católica e de sua teologia foi a convocação do Papa João XXIII, encontro mais conhecido como o Concílio do Vaticano II (1962-1965).

Seu intuito principal se deu na busca de um diálogo ecumênico com as questões da modernidade. Para tentar diminuir conflitos históricos existentes do centralismo episcopal, uma das decisões tomadas pelo Concílio foi estabelecer uma teologia e fortalecer a autonomia do laicato, este que até o momento nunca tivera um relevante protagonismo eclesial.  

Dessa ação, surge então o aparecimento e incentivo das CEB´s (Comunidades Eclesiais de Base). São grupos ligados à igreja que se reunem ao redor da paróquia e que possuem como integrantes pessoas de classes populares. Nestes espaços, através da Bíblia, há discussões sobre sua aplicação local. Foram as CEB´s que ajudaram a formar na década de 70 os movimentos populares.

No Início da década de 70, através dos movimentos populares, cria-se o sindicalismo. Como maior expoente de atuação e força sindical, podemos citar o Sindicato dos Metalúrgicos da região do ABC, em São Paulo. São desses envolvimentos que, no início dos anos 80, surgem novos grupos políticos partidários. Citamos aqui a criação do PT (Partido dos Trabalhadores).

Observamos na Época da Pós-Ditadura uma crescente perda do poder dos movimentos da Igreja e uma maior atuação dos movimentos estudantis e sociais nesse partidos políticos.

Por fim, a definição do período da Pós-Constituinte é exposta como “profissionalização da militância”. Nos anos 90 em diante, há um aparecimento explosivo de ONG´s (Organizações Não-Governamentais), OSCIP´s (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), Entidades Sociais, etc. Cria-se um certo distanciamento entre as organizações do terceiro setor e os movimentos sociais e políticos.

Atualmente, algumas pessoas que estão exercendo algum cargo político no governo, no passado já se engajaram nas CEB´s ou foram influenciados pela Teologia da Libertação. Hoje a militância de muitos está se transformando em puro profissionalismo, a filiação partidária está se tornando um fim em si mesmo e não um meio para atingir ações políticas e há um certo esvaziamento das utopias.

É preocupante e isso atinge a juventude que faço parte. Anestesiados e calados: somos cínicos com a nossa própria história.

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3 comentários sobre “Da militância às ONG´s

  1. jussara

    Desde a Revolução Francesa, no século XVIII, a prática da filantropia,iniciada desde então pela Igreja Católica, acontecia como forma de mascarar a pobreza em massa e as consequências do capitalismo.
    A profissionalização que começou no fim do séc. XIX e no Brasil no começo do séc.XX, foi o ínicio de uma causa para reivindicar ações políticas.
    Eu vejo a Teologia da Libertação como uma ferramenta e não como precursora.
    Hoje, profissionalização em conjunto com as ONG’s tem como objetivo a luta dos pelos direitos do cidadão, objeto não alcançado pelas militâncias.
    É claro que o Frei Betto sabe o que está dizendo, mas de maneira nenhuma é a situação pode generalizada. E, graças a Deus, não dependemos só das CEB’s.

  2. Moises alves

    As palavras do patriarca da teologia da libertaçao ainda continuam precisas. Betto como teologo e militante sempre enfatizando a responsabilidade duma juventude engajada nas questoes sociopoliticas.

    Deixo uma pergunta:

    Quais são as possibilidades e os limites da criação de novos espaços para o exercício da reflexão teológica latino-americana, para uma teologia cada vez mais pública?

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