O Deus-impotente e a teologia da cruz

Deus impotente

Imagem Extraída de: blog.cancaonova.com/…/frases-que-marcam/

Por Moyses Alves

O historiador francês Jean Delemeau escreveu uma excelente obra: “A espera da Aurora. Um cristianismo para o amanhã” (Titulo Original: Guetter l’ aurore – Un christanisme pour demain). No capítulo VI (o negro e branco), no terceiro tópico que vem com o título: “A não – potência de Deus”, Delemeau faz as seguintes afirmações: “Deus ficou entre nós para sofrer, como nós, com a violência do mal ele morreu no abandono mais completo. O Deus para o qual os cristãos oram todos os dias gemeu em um berço segundo Lutero, e cresceu em um meio modesto” [1].

Tal afirmação abre caminho para pensar-mos a genialidade de Deus em ser “escombro humano” (Delemeau). Para o autor, o Deus todo poderoso que se tornou um escombro humano é o âmago do paradoxo cristão e da loucura da cruz. Apesar dessa loucura a teologia da cruz traz a reflexão de um Deus em simpatia com o ser humano, assumindo nossa condição de limitação e sofrimento, como enfatiza Paulo Roberto Gomes: “A teologia da cruz nos faz repensar as imagens divinas, quando nos deparamos com um Deus que nos quer libertar da alienação e nos conduzir a humanização e que revela também o desejo humano de Deus” [2].

A teologia da cruz nos ensina na autêntica “loucura” proferida pelo apóstolo São Paulo, repensar Deus na perspectiva da impotência, da solidão, também sofrendo com os marginalizados da história.

Ora, se na cruz nós percebemos a impotência de Deus, ela mesma nos ensina até que ponto um Deus apaixonado iria pelo ser humano. O Deus em Jesus abre caminho para a afirmação fantástica de Delemeau sobre o desejo de Deus em compartilhar a nossa condição: “Ele se identificou com o viajante abandonado semimorto na estrada para Jericó, com aquele que tem fome e sede e não tem o que vestir, com o prisioneiro, com o doente e com o estranho. Deus é também a criança judia enforcada em um campo da morte” [3].

O Deus frágil também está ao lado do ser humano em sua aflição. No horror da cruz nós encontramos um “Deus escandaloso” (Vitor Westhelle), mas também um “Deus apaixonado” (Jurgen Moltmann) fazendo sinfonia com o escândalo e a loucura.

Nessa perspectiva do Deus impotente apresentado por Delemeau, a teologia da cruz como vimos revela de maneira evidente a radicalidade de Deus no humano que sofre, abrindo caminhos para repensarmos a crucificação do divino na face dos pobres do terceiro mundo, uma espiritualidade fincada no ser do pobre sofredor para o ser de Deus impotente.

As igrejas que saíram de Medellín e Puebla vislumbram o divino partilhando a condição humana de sofrimento, pobreza e marginalização. A cruz e a morte acompanham os projetos alternativos a sociedade vigente, tratando especificamente da América Latina, em nosso caso, Leonardo Boff diz: “de um capitalismo periférico e elitista, marginalizador das grandes maiorias de nosso povo” [4]. Os processos de exploração gerando acumulação de um lado e miséria de outro, instaura nos oprimidos crucificados.

Com Deus na história, há um sentimento de libertação e ressurreição em um contexto de cruz e morte. Esse pensar teológico nasce da realidade, do índio injustiçado, do trabalhador explorado, do idoso enganado, da mãe e o pai que enterra seus filhos assassinados, da menina assediada, enquanto durar a história o homem-Deus também sofre com eles.

Antes de finalizar este assunto é imprescindível exibir uma das poesias de nosso poeta João Augusto dos Santos, camponês de Inhapi, Alagoas. Defendendo a tese de que a doutrina de um Deus Defensor da ordem estabelecida não combina com a revelação do Deus feito homem, o nosso poeta-camponês diz:

“Se Jesus fosse culpado da fome e do sofrimento, Ele não tinha vindo ao mundo para libertar a gente.

Quando eu era inocente, eu pensava diferente, que Jesus era o culpado da morte e do sofrimento.

Eu agora estou entendendo, que Ele veio libertar a gente da fome, da doença, da morte, do sofrimento.

A era de oitenta e quatro foi uma calamidade.

Morreu criança de fome e muito velho de idade, mas não foi falta de alimento que o mercado estava lotado, foi falta de salário justo e homem de boa vontade.

Na frente de emergência houve um grande sofrimento, morreu muito pobre de fome, mas enricou muita gente a custa do suor dos pobres trabalhando no sol quente, outro morrendo de fome pra ganhar três mil e trezentos.

Teve gente naquele tempo que comprou um móvel de televisão pagando no fim do mês uma boa prestação.

Outro morrendo de fome mas não foi falta de pão, que o pão estava sobrando lá na mesa do patrão.

Chego na mesa do rico, vejo tudo em fartura, carne, arroz e farinha, muita fruta e verdura.

Chego na casa do pobre, só encontro angu puro, as vezes quando acontece com um tiquinho de rapadura.

O horror que esta no mundo é de cortar o coração: Tanto filho abandonado, tanto pobre sem o pão, tanto rico de milhão chupando sangue de crista sem querer nem dar um prego numa barra de sabão “[5].
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[1] DELEMEAU, Jean. 2007, p.109
[2] GOMES, Paulo Roberto. O Deus im-potente. O sofrimento e o mal em confronto com a cruz. São Paulo, Loyola, 2007 p. 198
[3] DELEMEAU, Jean. 2007, p. 110, 111
[4] BOFF, Leonardo. Do Lugar do Pobre. Petrópolis, Vozes, 1997, p. 129
[5] RICHARD, Pablo. Org. Raízes da Teologia latino-americana. São Paulo, Paulinas, 1987, p. 362, 363

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3 comentários sobre “O Deus-impotente e a teologia da cruz

  1. Rogério Gonçalves

    Há uma máxima no direito que diz: “Contra fatos não há argumentos.” Nesse caso é o contrário: “Contra argumentos não há fatos.”
    Acho intrigante os relatos no texto onde “Deus não livra o homen do sofrimento, mas sofre com o ele.

    Parabéns ao meu amigo Moisés pela sua genialidade.

  2. Rogério Gonçalves

    É meu querido poeta-camponês, é como disse o escritor russo liev Tolstói:

    “Os ricos fazem tudo pelos pobres, exceto descer de suas costas.”

  3. O que eu acho extraordinário, é que Deus em Jesus se limita a tal ponto, chegando mesmo a sofrer, chorar, e por fim morrer (claro que a morte não é o fim), tornou-se gente! Na encarnação vejo um envolvente ato de amor: Ele decidiu viver como a sua própria criação.

    Seu blog é muito interessante, sempre que der estarei por aqui.

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