O Rei e a Camponesa

 Imagem Extraída de: http://valedapedra.blogspot.com/2007/08/palcio-das-obras-novas.html

Por Moyses Alves

“Se você ama alguém, deixe-o livre. Pois é somente na plena liberdade que descobrimos o amor.” (Sting)

Ele era um rei diferente dos outros. Não herdou a arrogância e preponderância de seu pai nem tão pouco seguia a risca as tradições.

Seu reino era conhecido por todo Ocidente: padres, bispos, nobres, soldados e camponeses formavam seus súditos. Seu castelo era construído de blocos de pedra, localizado na região alta de seu feudo, pois assim ficava mais fácil visualizar a chegada de seus invejosos inimigos. Cercados por muralhas e torres, posicionados por arqueiros e outros tipos de guerreiros, era uma visível fortaleza.

Com o tempo, o castelo do rei, tornou-se refugio dos habitantes do feudo, inclusive dos camponeses (servos). Algumas vezes estes, sentindo-se ameaçados pela proximidade dos inimigos, corriam em busca de abrigo dentro das muralhas do castelo. O rei bondoso os acolhia oferecendo sua proteção.

A parte interna do palácio era fria e rústica; os cômodos eram enormes e em grande quantidade. Frio e sem alegria também estava o coração do rei. Seus pais já tinham mergulhado na morte. Não tinha uma rainha e nem tão pouco filhos para a sucessão do trono. Todos os dias ele penetrava em seu aposento com uma serva qualquer e, ao sair na manhã seguinte, a tristeza desenhava sua face. Com toda aquela fortaleza de seu castelo, o rei se sentia sozinho e triste por não encontrar a futura mulher que lhe traria alento e amor.

Nas festas comemorativas era o primeiro a ausentar-se para seus aposentos com uma taça de prata a locupletá-la de vinho na mão direita e caminhava para o exílio.

Foi então que um de seus amigos, o padre Plínio, teve uma idéia. Plínio tinha o acesso restrito ao rei e por isso, propôs um baile convocando todas as moças nobres do reinado para se candidatar a futura rainha. Mas, no primeiro momento, o rei rejeitou. Dizia ele que somente entrelaçaria o seu coração com outra na sinfonia do amor. Plínio insistiu até obter a resposta que lhe prazerava.

Imediatamente escreveu cartas convocando as princesas de todas as províncias do reino, procedendo posteriormente à chamada do mensageiro.

A organização do baile procedia do grupo de servos e servas que trabalharam intensamente nos preparativos, desde a cozinha ao grande salão principal. Chegado o dia do baile, no inicio da tarde, as carruagens traziam as princesas sorridentes e pomposas. O salão foi preenchido pela presença dos convidados e o rei esperançoso aguardava a hora das apresentações. Então, o momento esperado aconteceu: todas as princesas apresentaram-se dizendo pelo menos suas três gerações e os interesses políticos e econômicos na relação. De todas elas, nenhuma agradou o coração do rei. Educadamente, despediu-se das convidadas e com lagrimas desenhando trilhas em sua face, regressou para seu frio aposento.

Aquela noite lhe foi a mais dolorosa, nenhuma serva entrou no quarto, aos prantos rasgava as suas vestes e dizia; “maldito homem que sou ainda não conheci o amor e não muito tarde irei para o tumulo”. O momento era de solidão e sofrimento, o silencio interponha-se no palácio e o bondoso rei nadava-se na angustia.

Mas o outro dia irradio com o despontar do sol nas janelas de seu aposento, era a hora de acordar e continuar a viver bondosamente, mesmo com o coração dilacerado na memória da frustrante experiência, a figura do rei tinha que ser firme. Levantou, deu as ordens aos súditos e sentou-se em seu trono para resolver problemas de seu reinado. E assim a vida para o rei era monótona e sem surpresas, mas todas as noites quando retornava para o seu tratado intimo, a solidão esmagava-lhe o coração.

Certo dia acordou disposto e fez algo diferente. Solicitou a presença de alguns soldados e do cocheiro. Para os saldados reclamou uma escolta e em seguida ordenou ao cocheiro que lhe separasse o melhor cavalo. Espantados sem saber o que estava acontecendo, tanto os soldados como o cocheiro teve suas interrogações, mas ordens eram para serem compridas principalmente vindas do rei.

Deixando seus afazeres diários o rei foi para o lado exterior do palácio, os súditos e principalmente seu amigo Plínio se espantou. Subindo nas costas do cavalo, com a coroa quase descambando de sua cabeça, segurou firme nas rédeas e galopou para o destino das aldeias onde residia os camponeses. Os soldados preocupados sem entender absolutamente coisa alguma fazia a escolta com uma das mãos firmes na espada, até por que já não estavam mais dentro das muralhas que lhes possibilitavam fortaleza.

Ao chegar à aldeia que fazia parte seu reinado o rei esbanjava em sua em face a surpresa da realidade sofrida, mas ao mesmo tempo alegre daqueles plebeus. Os camponeses não acreditavam no que estavam vendo, era o próprio rei caminhado no vilarejo em silencio. Foi quando o seu coração disparou impulsivamente, seu olhar percorreu a ultima casinha humilde de palha e visibilizou uma camponesa segurando uma sexta de flores, era a mais bela mulher que o rei já tinha visto em toda sua existência. O sorriso dela forçou a abertura do coração dilacerado do rei em concretizar o aparecimento do amor, sua beleza hipnotizou-o tornando-se frágil para o sentimento. Não restaram duvidas, o rei tinha encontrado a sua amada. Outorgou a ordem para os soldados que a levassem ao o palácio e anunciassem para o reinado que a futura rainha foi descobrida. Pondo em pratica a ordem, o rei regressou ao palácio com sua amada em silencio e vergonhosa.

A noticia se espalhou por todo reinado, todas as princesas murmuram-se de raiva pelo rei ter se apaixonado por uma plebéia. Os seus amigos, padres e mesmo seu intimo Plínio lhe aconselhou a não fazer tal besteira, mas nenhum deles entendia que existem razoes do coração que a própria razão desconhece.

Depois de um tempo curto era a hora de oficializar o casamento. O rei alegre e feliz esbanjava musicas em seu palácio. Todos foram convidados, até mesmo os camponeses. Agora não era um baile, mas uma festa de casamento, uma unificação de duas pessoas em um só corpo. Tudo correu de maneira bela, a festança extraiu elogios e o rei felizmente conheceu o amor.

Passando os anos a alegria e a felicidade do rei continuava a mesma, sorridente todos os dias colhia flores de seu jardim e presenteava a rainha, que não era mais camponesa. Mas o sorriso não era o mesmo no rosto belo da rainha, ela viva aos cantos do palácio, não fazia juras de a mor ao rei, com certeza aquele sorriso de camponesa tinha perdido ao caminho do palácio. Não se alimentava e às vezes trancava-se no quarto chorando. Alguma coisa estava acontecendo, e o rei tão ludibriado pelo seu amor não notou essa mudança de comportamento da rainha. Até que um dia ele percebeu que ela não era mais a mesma, já não descia para caminhar com ele no jardim, não lhe dava filhos e não escondia a sua angustia.

Tendo essa percepção o rei a chamou e perguntou: “Meu amor por que você esta tão melancólica, em seu rosto belo já não encontro aquele sorriso de antes e por que você não caminha mais ao meu lado no jardim? O que posso fazer para te ver sorrindo e feliz? Até a metade do meu reinado eu te presenteio”. Com as lagrimas cobrindo seu rosto disse gaguejando: “O meu rei, meu senhor e bondoso rei, quando Sua Majestade visitou a aldeia onde me residia e me visilizou não somente com os olhos, mas com o coração, era tudo que uma camponesa desejava pra sua vida. Mas eu nunca te amei, Sua majestade praticamente me obrigou a vir para esse palácio por que eu era a mulher de seus sonhos. Mas a Sua majestade nunca perguntou qual era o meu parecer em relação a tudo isso, quem me amava era a Sua majestade, eu era somente uma simples camponesa noiva de um plebeu. Eu não o amo”. Chocado com a resposta o rei aos prantos compreendeu o seu “equivoco” e replicou dizendo: “O que eu posso fazer para você me amar e se sentir feliz ao meu lado?”. A rainha vertendo em lagrimas condisse: “Deixa-me voltar para minha aldeia, para junto de minha família e amigos, também para o meu noivo. Se na distancia de sua presença eu sentir a tua falta, voltarei e você ó rei terá uma amada feliz aos seus braços. Mas se não sentir a sua falta, Sua majestade terá que me esquecer por que não regressarei”. O silencio pairou o ambiente do palácio, parado e pensativo o rei permaneceu. Depois do aguardo silencioso o som da voz reapareceu de maneira calma e serene, o rei verbalizou: “O meu amor por você foi cego, mas não desprovido de liberdade. Você é livre para voltar a sua aldeia, para juntos de seus familiares, amigos e também de seu suposto noivo, mas tenha conhecimento de uma verdade; Eu te amo e sempre te esperarei”.

A rinha que agora voltava a ser camponesa despediu-se do rei e de seus súditos, foi escoltada para a antiga aldeia reencontrando sua família e seus amigos. O rei triste com o coração mais uma vez dilacerado acreditava em seu regresso.

Depois de um tempo a saudade apertava-lhe o coração, era a alma dizendo para onde queria voltar. A ausência da presença da camponesa em seu coração fez com que criasse a sua própria realidade aceitando a distancia. O Rei entendeu que o significado da ausência da camponesa, gerou saudade e um encontro com o misterioso; “Deus”. Resolveu amarrar a esperança em seu coração, enfrentar o mar em fúria, avançando para águas mais profundas. Em seu palácio não fazia mais ouvir o som das musicas possibilitando que as lagrimas desenhassem ruas em seu rosto. As tardes frias chegam, logo após a noite escura da alma, mas o misterioso faz nascer o amanhã e paradoxalmente Ele o educou a amar pessoas embaixo da liberdade.

Todas as manhãs o Rei corre a fronteira do palácio almejando visibilizar o regresso da Camponesa, o tempo passa e a tarde chega com falta de viveza. Retorna para parte interior do palácio com o coração apertado, mas não desiste, esperança é o que lhe move a acreditar na volta de sua amada, mesmo quando seus súditos lhe aconselham a aceitar a realidade de ela nunca mais voltar.

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