Série 5 Anos do Caminhada: “O prazer dos Olhos” – Marcelo Caldas

O PRAZER DOS OLHOS – REFLEXÕES SOBRE O FILME: O LEITOR

(MOÇA COM LIVRO), DE JOSÉ FERRAZ DE ALMEIDA JÚNIOR, entrada no acervo do MASP em 1947.

Por Marcelo Caldas (http://marcelocaldas.blogspot.com.br/)

O filme “O LEITOR” é inquietante. Belo e triste ao mesmo tempo. Ele nos incomoda, pois vem justamente contrapor nosso senso comum, de que a sociedade é pautada pela moralidade. Aliás, falar de moralidade para nós brasileiros (pelo exemplo que vemos dos nossos políticos) é nauseante.
Stephen Daldry é um diretor premiado, fez outro filme interessante chamado: “As Horas”, que vale a pena conferir, e nesse excelente filme mostra novamente toda sua força nesta história de medos e segredos escondidos pelo tempo. Que aos poucos, como o desvelar de um grande mistério, tudo vem à tona paulatinamente.
Hanna Schimidt (Kate Winslet) foi praticamente uma misantrópica durante quase toda sua vida. Até que num dia, conhece um jovem (Michael), que se envolve amorosamente, durante um verão. E não imaginava, que desse relacionamento amoroso e pueril, suas vidas seriam marcadas para sempre. Baseado no livro de sucesso mundial “O LEITOR” é uma história que nos levará a questionar e refletir sobre todas as nossas mais profundas verdades.

O filme ainda rendeu a Kate Winslet, um Oscar de melhor atriz coadjuvante de 2009.

Adoro uma frase do Antonio Cícero, que diz: “Lugares que antes eu nem conhecia, abriram-se em esquinas infinitas de ruas doravante prolongáveis.” Nesse filme, vemos isso latentemente, ou seja, o amor pelo qual Hanna se entregava primeiramente aos simples prazer de ouvir a leitura de um livro, e depois, mais velha e na cadeia, quando por si só conseguiu aprender a escrever e ler, à partir daí se entregou a desbravar novos “lugares”.

Uma reflexão simples, que esse filme despertou em mim é que o homem é um ser que fala. A palavra se encontra no limiar do universo humano, pois é ela que caracteriza fundamentalmente o homem e o distingue do animal. Em outras palavras, a linguagem animal visa a adaptação a uma situação concreta, enquanto a linguagem humana intervém como um abstrato da situação. A palavra distancia o homem da experiência vivida, tornando-o capaz de reorganizá-la numa outra totalidade, que lhe dará um novo sentido.
É pela palavra que somos capazes de nos situar no tempo, lembrando o que ocorreu no passado e antecipando o futuro pelo pensamento. Enquanto o animal vive sempre no presente, as dimensões humanas se ampliam para além de cada momento.

A linguagem, ao mesmo tempo que permite o distanciamento do homem sobre o mundo, por meio da representação simbólica e abstrata, também é o que permitirá o retorno ao mundo para transformá-lo.
Portanto, se o homem não tem oportunidade de desenvolver e enriquecer a linguagem, torna-se incapaz não só de compreender o mundo que o cerca, mas também de agir sobre ele.

Na literatura, é belo (e triste) o exemplo que Graciliano Ramos nos dá com Fabiano, personagem principal de Vidas Secas. A pobreza do seu vocabulário prejudica a tomada de consciência da exploração a que é submetido, e a intuição que tem de sua situação não é suficiente para ajudá-lo a reagir de outro modo. Outro exemplo é o que o escritor inglês George Orwell apresenta no seu livro 1984, onde, num mundo do futuro dominado pelo poder totalitário, uma das tentativas de esmagamento da oposição crítica consistia na simplificação do vocabulário realizada pela “Novilíngua”. Toda gama de sinônimos era reduzida cada vez mais, logo: pobreza no falar, pobreza no pensar, impotência no agir.

Ora, se a palavra, que distingue o homem de todos os seres vivos, se encontra enfraquecida na sua possibilidade de expressão, é o próprio homem que se desumaniza.

Longe de querer dar uma resposta definitiva, penso que isso seja um dos motivos, que fizeram com que Hanna entrasse para as fileiras do exército da ISS, do fuhrer Adolf Hitler, e contribuísse ativamente, para uma das mais negras páginas da – história de nossa humanidade.
Vinte anos depois do horror do holocausto, foi julgada. Sentenciada a prisão perpetua, por liderar e fazer um relatório para a ISS, sobre um incêndio, que matou mais de 250 mulheres e crianças, numa igreja que foi bombardeada, e ela e as demais soldadas se recusaram a abrir as portas, enquanto as pessoas ardiam em chamas no interior do templo. As demais comparsas, pegaram apenas 4 anos e meio cada, e lhe acusaram falsamente de ter liderado tudo. Essa parte do filme é muito interessante, pois ela não teve a coragem de revelar seu segredo mais recôndito: seu analfabetismo. Que lhe livraria da sentença injusta. Daí a chamada do filme, provocante: “O que você seria capaz de fazer, para esconder um segredo?”

Engraçado, que não foi somente ela que carregou um segredo por toda sua vida. Michael (Ralph Fiennes), também carregou secretamente por quase toda sua vida o segredo da relação que manteve com ela, durante um verão. Embora o filme não diga, fica claro que esse amor da adolescência, foi um dos motivos da sua separação. E a lembrança disso, era tão forte, que ele chegou a ponto de não ir ao enterro do seu próprio pai, para não ter de se lembrar e recordar tudo que vivera com ela na mesma cidade, onde seu pai faleceu.

Paul Tillich, foi um importante teólogo alemão. E tem uma frase sua, que não me recordo onde li, mas seu sentido é algo mais ou menos assim: “O nosso passado não se encontra selado, mas em aberto.” Uma frase um tanto inquietante, mas o sentido em que ele diz isso, é que podemos dar um novo significado ao nosso passado – no presente. No filme vejo isso, quando Michael, leva sua filha para a cidade onde esteve com seu amor, num final de semana mágico, e atrás da igreja, mostra pra ela o túmulo de Hanna Schimidt, e a partir dali conta toda a história pra ela. Com isso, ele conseguiu se livrar do passado e dar um novo significado ao presente, pois sua filha, nunca entendeu muito bem a separação dele e da sua mãe.

Duas questões despretensiosas, mas profundas, pra mim e para você caro leitor: “Já pensou em dar um novo significado ao seu passado?” e que “O pior analfabeto é aquele que sabe ler, e não lê.”

Pense nisso…

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