O Prazer dos Momentos – “O Leitor”

klt

Imagem extraída de: http://despertandonaluz.blogspot.com.br/2010/04/desenvolver-nosso-potencial-espiritual.html

Por Marcio Uno

Meu amigo que escreve no blog “…Marcelo Caldas…” – http://marcelocaldas.blogspot.com.br/) – recentemente publicou em comemoração aos 5 anos no Caminhada & Missão um ótimo comentário sobre o filme “O Leitor” – com o título de “O Prazer dos Olhos”. Pois bem, intrigado com suas percepções, fui assistir à obra cinematográfica e pude endossar as afirmações de Marcelo quando dedica suas palavras para expressar a beleza desta arte.

Sinto-me tão encantado e intrigado com o roteiro que, apesar das declarações realizadas por Caldas, resolvo escrever algumas impressões quanto ao “O Leitor”. Aproprio-me da intitulação “O Prazer dos Olhos” para nomear este texto como “O Prazer dos Momentos” e além das questões sobre moralidade, poder da linguagem e reconstrução de vida, anteriormente abordadas, trazer novas reflexões.

A película foi lançada em 2009, dirigida por Stephen Daldry, e tem como referência o romance alemão “Der Vorleser”, de Bernhard Schlink. Para não ser diferente, conta-se sobre uma história de amor e o período nazista. A primeira crítica são os problemas com maquiagem quanto ao envelhecimento dos atores, principalmente na interpretação de Hanna Schmitz (Kate Winslet), ficando muito aquém do realismo e perfeição se comparado com “O Curioso Caso de Benjamin Button” (direção de David Fincher), este, ganhador do Oscar 2009 em direção de arte e maquiagem. Entretanto, o conteúdo narrado é original e não há clichês em sentimentalismos e no holocausto judaico.

Hanna mantém um segredo consigo e que mais tarde será descoberto por Michael Berg (Ralph Fiennes). Leva-nos o enigma a indagar: até onde as pessoas se escondem para não despir a vergonha ocultada? Até as últimas consequências, mesmo que para isso sofram injustiças e acusações eternas? Não seria o opróbrio mais benéfico que a culpa e tortura de si mesmos? A dificuldade de lidar com a verdade trazem estagnação e silêncio a Sra. Schmitz.

Se para muitos da sociedade o problema estava na crueldade dos crimes, Hanna via nestes um refúgio as suas preocupações. Quando menos se percebe, valores imutáveis e domesticados se tornam os maiores inimigos. Enquanto Michael, que desvenda o mistério da mulher, a lê como doce e bondosa, o tribunal e os familiares das vítimas a veem como dissimulada, perversa e perspicaz.

Não é só a passividade da ré que incomoda, porém também a de Berg e da plateia no júri. Aliás, qual seria a pior das situações: a participação obediente, mesmo com certa ignorância e ingenuidade, em um sistema cruel como o nazismo e o enfrentamento do conluio de outras condenadas? A omissão de quem poderia mudar o rumo de uma vida quando se conhece a realidade dos fatos e possui capacidade intelectual e profissional para defendê-la? Ou a hipocrisia dos acusadores que se silenciaram diante do movimento pelo qual anos mais tarde abominarão? A frase apropriada para estas interrogações é a do professor de direito Rohl (Bruno Ganz) quando em determinado instante do filme diz: “O que sentimos não é importante – apenas o que fazemos é o que importa”.

Em “Das weisse Band” – “A Fita Branca”, em português – o renomado diretor Michael Haneke traz uma abordagem semelhante quanto ao assunto quando mostra aos espectadores a época que antecedeu a 1ª Guerra Mundial em uma vila alemã. Demonstra o sofrimento das crianças diante das atitudes de seus genitores e que a intolerância e barbarismos já reinam diante do povo. O massacre dos judeus nada mais é que uma questão de tempo, uma consequência dos fatos, o ápice das ações doentias no transcurso do período.

Outra discussão seria quanto ao tema “momento”. Em algumas vezes, existem momentos vividos que não retornam mais ou surgem de forma divergente do esperado. A vida é dinâmica e, portanto, cada instante deve ser saboreado como único pelos homens. A relutância pelas transformações e o culto idolátrico ao passado conduz ao caminho da amargura, inconformismo e suicídio.

A obra do escritor francês Victor Hugo, “O Miseráveis”, que posteriormente foi apresentado aos cinemas, dentre outras versões, pela direção de Bille August (1998) e Tom Hooper (2013) retrata similarmente quanto às objeções humanas ilustradas em “O Leitor”: O poder, o sistema e a maldade tornam-se tão comuns que gestos de justiça, amor e misericórdia são terríveis causadores de insônias e perturbações. É dura a aceitação do belo quando se acostuma com o horror. É amargo acolher o perdão do próximo e de si mesmo.

Perdão. Esta é a palavra que Michael compreende e exerce pedindo indulto à filha, à mulher que amou, a si e até intercede por Hanna. Entende que a vergonha, segredos não revelados e omissões, devem ser desvencilhados para que, a partir de então, possa desfrutar intensamente e eternizar os momentos. E aqui, utilizo-me da expressão de Platão: “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.”

 

Anúncios

Um comentário sobre “O Prazer dos Momentos – “O Leitor”

  1. Bravo! Bravo! Bravo! Sensacional Uno, sua pena é certeira e aguda, pois vai direto ao ponto nevrálgico da questão. Excelente texto, tiro o chapéu!
    Na realidade tenho me debruçado sobre a obra de Hannah Arendt, especialmente para entender: “a banalidade do mal” e meu caro, fiz um texto onde dessa vez não me segurei como nos posts anteriores, descarreguei tudo que tinha dentro de mim: filosofia, cinema, teatro, psicologia, teologia, sociologia… Para tentar entender aquele crime horrendo, onde um rapaz atirou numa grávida de 9 meses no rosto, e ela veio a morrer, aqui no bairro do Campo Limpo e graças ao nosso bom Deus o seu filho sobreviveu. O post é o mais recente: “Crônicas Avulsas: Eu prefiro ser uma vírgula, do que um ponto final”. Se puder leia, creio que vais se agradar, pois estamos girando sobre o mesmo tema, do filme: O leitor e a nossa dura realidade, que volta e meia nos esbofeteia a cara.

    Abraços,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s