Proseando no hospital

Banco da Praça

Imagem Extraída de: http://aartedaprolixidade.wordpress.com/2011/05/23/banco-de-praca/

Por Marcio Uno

Internado, no último andar do hospital.

Era o segundo dia consecutivo que vi a mesma enfermeira. Ela bateu a porta e se adentrou:
– Boa Noite, Marcio. Como está se sentindo?
– Estou bem, obrigado.

Já emendei a pergunta que fiquei pensando, no ócio, horas antes do encontro:
– Uma curiosidade, você é mineira?

Ela ficou um pouco ressabiada e acho que até pensou que o tom da indagação era de sarcasmo ou de zombamento, mas ainda assim respondeu de forma tímida e vergonhosa:
– Sim, sou. Por que?
– Ah, porque eu percebi seu sotaque, alías e como é lindo.
– Obrigada.

Aproveitei para mais uma questão:
– Então, você é de Juiz de Fora?
– Nossa, sou sim!!! Respondeu intrigada.
– É. Tenho conhecidos de lá e também já visitei esta cidade. Além de seu jeito mineiro, tem muito do gingado carioca característico do juiz-forano.
– Ah, é verdade!!!
– Como te disse, acho muito bonito esta forma de se prosear. O linguajar revela muitas coisas intessantes sobre a vida daqueles que pronunciam. Por exemplo, em terra da…. (por ironia, naquele instante olhei pela janela do quarto e chovia intensamente. A típica tempestade que para a cidade)…Já não é mais terra da garoa né?
– É mesmo.
– Bom, como ia dizendo, nós paulistanos temos um jeito seco, objetivo, austero, impaciente e monossilábico de se comunicar o que demonstra muito o ritmo de vida corrido, individual, racional e estressante da capital. Os diversos modos de se comunicar como o cadenciado, o arrastado, o cantado revelam a riqueza e vida do nosso Brasil.

O que diríamos do povo baiano? E os gaúchos? Barbaridade Tchê!!!

Assim que acabou de colocar um novo soro, disse a enfermeira com muita calma:
– Qualquer coisa me chame. Boa noite!!!
– Obrigado. Boa noite!!!

Volto e deito ao leito. Enquanto isso, do outro lado da janela, sons de motores, buzinas, apitos e sirenes ecoam pelas ruas na noite da metrópole.

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3 comentários sobre “Proseando no hospital

  1. Show irmão Uno.
    A enfermeira era bonita? Mesmo que não seja esteticamente, deve ser linda por dentro, e no frigir dos ovos é isso o que realmente importa.

    Espero que esteja melhor de saúde. E sua reflexão foi linda, tocante. Estou passando por maus bocados também, e somente a literatura tem esse dom de nos fazer abstrair da nossa dor comum para comungar algo de valor com a humanidade. Fico feliz de ter um AMIGO como tu, que mesmo em meio a enferminadade, ou seja, lá o que for que lhe acometeu, ainda mante a doçura do olhar agudo de escritor, que espreita num simples detalhe da vida, algo de valioso e nos ajuda a repensar nossos valores, meus parabéns mesmo: VOCÊ É O CARA E JACARÉ É UM BICHO!

    =)

    Do insipiente amigo escritor:

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