No isolamento, o acolhimento

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Imagens Extraídas de: http://carpenitto.blogspot.com.br/2010/07/acolhimento.html

Por Marcio Uno

“Acontece que eu vivia em exílio, aguardando a volta; E era preciso pensar a vida. A minha dor não me permitia outra coisa.” – (Rubem Alves, pág. 48, Por uma teologia da libertação – Prefácio sobre deuses e caquis)

Realmente o hospital é um lugar terapêutico. Obviamente, não é o local mais almejado para se pensar sobre a alma, porém, em alguns momentos, faz-se necessário.

Minha primeira experiência sobre a reflexão da vida dentro de um hospital foi aos 12 anos. Naquela noite, no centro de São Paulo, aprendi que somos mortais. Ao meu lado, os gritos daquele senhor em suas últimas forças desmascararam meus sentimentos pueris da eterna trajetória, pelo menos carnal, que cultivava até então.

Após, tive lições contínuas durante os três anos que trabalhei em um hospital público. Agora, a sensação captada foi da humildade. Diante da dor e da morte, a humanidade se aflora e brota a sensibilidade de que o sofrimento torna-nos iguais.

No início do ano de 2013, minha primeira internação. Diagnosticado possuir uma infecção viral, fiquei numa área de isolamento físico. Aproveitei para me desfazer, durante uma semana, do celular, televisão, rádio, internet. Tive a companhia de poucas visitas, um livro, caneta, bloco de papel (onde escrevi este texto), da minha pessoa e de médicos, residentes, enfermeiros e seus auxiliares. Nada mais.

Marcou-me, neste período, escutar-me e ter a percepção do cuidado de Deus. Este, que foi materializado por cada enfermeiro, auxiliar, médico, pessoal da limpeza e nutricionista que adentrava no recinto contaminado. Em cada palavra de bom dia, de perguntas sobre como eu me sentia, de sorrisos e olhares, de silêncio e mesmo quando não via ninguém, mas escutava ruídos e balbucios pelo corredor da ala de Moléstias Infecciosas, sentia-me abraçado e acolhido pelas mãos do Pai; desde as mais simples ações até de atitudes nobres como de minha filha que, estando impossibilitada de me ver, disse que gostaria de estar ao meu lado para “cuidar do meu pai”.

O carinho de Deus que recepcionei na alma independia de resultados, diagnósticos e cura da doença. Não tinha relação com circunstâncias ou de situações que enfrentava, porém mesmo diante do “vale da sombra da morte” o afago e paz ao coração era perceptível e real. Concretizado através de outros que estavam ao redor.

Talvez, haja verdade na definição de que a ausência de Deus seja a ausência das pessoas e de si mesmo. Lembrei-me de quando um parente próximo ficou internado por alguns meses em um lugar difícil e em dias de visitas, quando nos avistava naquele jardim, um entusiasmo absurdo tomava seu corpo e nos contagiava.

Concordo com a célebre frase de Antoine de Saint-Exupéry, no livro “O Pequeno Príncipe”, quando diz: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” e um belíssimo trecho do musical “Os Miseráveis – Les Miserábles” de Tom Hooper: Pegue minha mão, eu vou levar você para a salvação. Leve meu amor porque o amor é eterno e lembre-se a verdade que já foi falada: amar uma outra pessoa é como ver o rosto de Deus”.

No isolamento, tive acolhimento!!!

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2 comentários sobre “No isolamento, o acolhimento

  1. Lindo Uno!

    Sua crônica é leve e tocante ao mesmo tempo.

    Mostra sua alma! Um desnudar do ser humano, que desprovido de toda e qualquer arrogância, consegue aí sim, enxergar no próximo o carinho de Deus.

    Bravo!

    Sugiro que ouça essa música, que inclusive escrevi sobre ela no meu blog (mas, adianto que passou longe da leveza alcançada em sua crônica) eis:

    http://marcelocaldas.blogspot.com.br/2012/06/assim-entendo-palavra-deus-esta.html

    Abraços,

  2. Suzana

    Realmente lindo e tocante! Me lembrou de minha epoca de faculdade em que me voluntariava para atender aqueles pacientes que estavam no isolamento…o fazia com uma vontade imensa de simplismente acolher!…
    Adoro ler seus textos. Vou me sentindo abracada a cada paragrafo…sinal de que foi escrito com muito sentimento!
    Obrigada por compartilhar.
    Bjoss

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