Doce Morte – “A Partida”

Departures

Imagem Extraída de: http://cinemagrafado.files.wordpress.com/2010/06/a-partida-3.jpg

Por Marcio Uno

“…E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.” – Vinícius de Moraes – “A Partida”

Belo!!! Esplêndido!!! Magnífico!!!

São estes e outros adjetivos que avalio o filme “A Partida” de Yojiro Takita. O longa-metragem japonês, ganhador do “Oscar” de melhor filme estrangeiro em 2009, tem como tema a MORTE e a relação com o mundo que a cerca. Apesar do mote retratado do começo ao fim, a obra não apresenta sequer relação com o terror, o macabro, o indigesto, pelo contrário, trata com pitadas de doçura, punhado de sensibilidade, pinceladas de beleza e frações de humor (às vezes de forma inapropriada e exagerada).

Também, diferencia-se da antológica obra de Ingmar Bergman (1956), “O Sétimo Selo” (Det sjunde inseglet), pois enquanto este enfatiza sobre o medo da morte que tragava a população europeia com a peste apocalíptica na Idade Média, “A Partida” evidencia uma relação de naturalidade, celebração, reverência sobre o falecimento humano diante de uma sociedade cuja expectativa de vida é alta e que, cada vez mais, pessoas alcançam a idade centenária.

Conta-se sobre um violoncelista, Daigo Kobayashi, que vê sua orquestra e seus sonhos serem dissolvidos e então, resolve sair com sua esposa, Mika, da capital do país para morar na casa de herança de sua mãe, já morta, no interior do Japão (Yamagata) e tentar refazer a vida. Lá, é surpreendido pelo destino quando é contratado para ser um “Nokanshi”, uma espécie de preparador e acondicionador de defuntos. Encontramos um exercício de humildade para um jovem e talentoso músico que se submete a um “serviço de quinta categoria” que, geralmente, é realizado por “dekasseguis” (trabalhadores estrangeiros).

Romper com algumas tradições e preconceitos. Takita trata, de forma contemporânea, sobre temas polêmicos para uma cultura oriental como os empregos inaceitáveis, a impureza dos corpos, vergonha, culpa, homossexualidade, relação do corpo com a alma, expressão de sentimentos, rigidez moral e até de religiosidade, quando Daigo com seu instrumento, numa noite natalina, indaga se há restrições aos ouvintes e então entoa o belo canto de Ave Maria.

Reforçar tradições e o respeito. Se de um lado o diretor dialoga com as influências ocidentais e globalizadas, de outro critica a pós-modernidade reafirmando milenares costumes das sociedades orientais a serem preservadas como visões sobre a vida e a morte, sacralidade de lindos rituais e do silêncio, continência ao ancestral e ao histórico e cultivo do interior, da espiritualidade e das emoções.

Além do ótimo roteiro e da impecável atuação de Masahiro Motoki (Daigo Kobayashi), Ryoko Hirosue (Mika Kobayashi) e Tsutomu Yamazaki (Ikuei Sasaki), são encontrados elementos poéticos no diálogo dos personagens, na linda trilha sonora e como diz o autor, na paisagem e natureza que demonstram o estado dos indivíduos e o clima do enredo. As estrofes são construídas nas trocas das folhas do “sakura” (cerejeiras), na severidade das nevascas, na migração dos gansos e em pausas acentuadas das imagens.

Apesar das dificuldades encontradas e do ganho financeiro, Daigo passa a considerar seu novo trabalho como uma forma de servir, trazendo-lhe satisfação pessoal: “Fazer reviver um corpo frio e dar a ele beleza eterna. Isso tudo feito com tranqüilidade, precisão e, sobretudo, com infinito afeto. Participar do último adeus e acompanhar o morto em sua viagem. Nisso eu percebia uma sensação de paz e extraordinária beleza.”

Noutro trecho, o jovem demonstra o conflito na reflexão entre a vida e a morte e escuta a sábia resposta para suas indagações: “- É triste subir a corrente para então morrer. Porque tanto esforço para depois morrer? – Talvez eles queiram voltar para o lugar onde nasceram.” Apesar das dúvidas existentes, no decorrer de seu ofício já não se preocupa sobre a causa da morte ou o medo do desconhecido, mas a si faz a seguinte pergunta: “Como terá sido a vida desse homem?”

E aqui, mais do que a compreensão quanto à desintegração física humana, temos a percepção de que diante da vida sofremos e presenciamos vários funerais. Estes são retratados nas mudanças dos ciclos da natureza, mortes dos animais, sonhos enterrados, rompimentos de relacionamentos, etc… São as sábias palavras dos Evangelhos de Cristo que diz sobre a necessidade de morrer em determinados momentos, pois somente assim que o grão de trigo dará muito dos seus frutos. (João 12:24)

Acertadamente o nome do filme é “A Partida”: “A Morte é uma passagem, a morte não é o fim. É deixar para trás este mundo e partir para um outro. É realmente um portão. E eu, na qualidade de guardião do portão acompanhei aqui muitas pessoas. Boa viagem, até breve (Iterashai, Matta ne!!!). É assim que eu me despeço das pessoas”. Também, é assim que a morte é definida por Vinícius de Moraes e pela intérprete Maria Rita em “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento e Fernando Brant:

 “São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida.”

Enfim, quando as “mortes” chegarem apostaremos uma partida de xadrez ou daremos espaço para que todo fim seja uma oportunidade ao recomeço?

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