Leviatãs da Alma


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Imagem Extraída de: http://www.baciadasalmas.com/2006/o-quinto-dia/

Por Marcio Uno

As armas e os barões assinalados  
Que, da Ocidental praia Lusitana,  
Por mares nunca de antes navegados  
Passaram ainda além da Taprobana  
E em perigos e guerras esforçados  
Mais do que prometia a força humana,  
E entre gente remota edificaram  
Novo Reino, que tanto sublimaram;  (Os Lusíadas, Canto I, 1 a 15 – As armas e os barões assinalados – Luís Vaz de Camões)

Incessantemente, vários Leviatãs se emergem, provocando turbilhões de sensações, dos oceanos existenciais. O convívio e a intimidade são inevitáveis, ainda mais quando um pequeno sinalizador surge em concorrência, mesmo que desleal, com o brilho lunar no horizonte azul-escuro. Diante da onipotência estelar, ofusca-se qualquer lampejo.

Declarações de um confessionário: inescrupulosamente, ondas de covardia invadem a embarcação tomando o controle do leme. Se em momentos propícios as oscilações transmitem defesa e segurança, tais como os fortes, outras vezes propagam-se no bloqueio de caravelas, impedindo-as de flutuarem pelas águas, de inflarem as velas e de ascenderem alta patente à liberdade.

Em alto-mar, dois passageiros chamam atenção à tripulação.

Os sentimentos questionam: como é possível um sorriso infantil engessar a mente e paralisar o corpo? E a companhia madura do enfermo ancião ser alvo de endurecimento do coração? Há cura para tal escorbuto?

Tomam-se réplicas da razão. Esta ensaia alguns de seus conselhos: argumentos e motivos são criados, aderidos por uns, por outros ignorados. Os olhares dos viajantes formam um verdadeiro caleidoscópio e embora haja variedades, podem-se encontrar consensos. É o início de uma longa viagem, entretanto as combinações agradáveis das cores não garantem sucessos.

No paquete, não há tréplicas. Ouve-se somente o cadenciado som dos fluidos e o canto lírico dos ventos.

Ainda que o frio imobilizador acompanhe a rota dos navegantes, as mãos do Marujo não se encontram atadas. Em alguns momentos, os membros protagonizam a função do coração. Aqueles, são instrumentos terapêuticos das dores e, mesmo não sendo respostas às inquietações, traz força e esperança pelo romper dos grilhões que anunciarão a chegada da Beleza Eterna.

Na popa, corpos se debruçam sobre as grades relembrando os lenços molhados. Não há lamentos, muito menos lágrimas suficientes que escorram pela face e atinjam a superfície do espelho; Na proa, prontidão para proclamar boas novas. Reflexo da ortodoxia hebraica: qual será o dia em que o navio atracará no cais e Behemoth tragará os assoladores monstros marinhos?

Enquanto não se escuta o apito e a âncora não é lançada, o navio vai cortando léguas na busca por bonança e o solitário comandante é avistado, trancado na cabine, imprimindo a essência em papel branco para não se naufragar, deixando assim o amor imperar por entre as águas.

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