Choques da Maria Antônia (1968, 1958 e 2013)

Ato MPL

Por Marcio Uno

“Existe uma ideia, e ideias, Sr. Creedy, são a prova de balas.” – Trecho do diálogo entre Sr. Creedy e “V” no filme “V de Vingança”.

Voltemos 45 anos: 1968. Na Rua Maria Antônia, localizada na região central de São Paulo, universitários da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) realizavam um pedágio com o intuito de arrecadarem dinheiro para o custeio do tão famoso XXX Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), este que seria interpelado pelos militares dias seguintes.

Do outro lado da calçada, situavam-se as instalações da Universidade Mackenzie (de origem missionária presbiteriana). Oposta não somente fisicamente, esta tinha a ideologia alinhada à ditadura (o movimento protestante, em sua maioria, apoiava os militares) e vários estudantes ligado ao CCC (Comando de Caças aos Comunistas), a FAC (Frente Anticomunista) e ao MAC (Movimento Anticomunista).

Devido às divergências políticas e ideológicas, as confusões e provocações eram constantes entre as instituições educacionais, porém o estopim para a conhecida “Batalha da Maria Antônia” (02 e 03 de outubro de 1968) foi o lançamento de um ovo pelos estudantes do Mackenzie, após serem abordados no pedágio, que acertou uma das meninas da Filosofia participante do evento.

A partir de então, o palco foi montado. Barricadas foram levantadas, gritos de ordem ressoavam pelo pequeno logradouro paulista, tais como “guerrilheiros fajutos” ditos pelos mackenzistas e “nazistas, gorilas” entoados pelos uspianos e lançamentos de pedras e paus aumentavam a tensão. Esther de Figueiredo Ferraz, reitora do Mackenzie, vendo o caos instalado faz uma ligação para o Governador Abreu Sodré solicitando a presença da polícia, sendo prontamente atendida.

A tropa de choque chegou e o ímpeto dos manifestantes se arrefeceu. Estava claro que a guarda viera para proteger o patrimônio da universidade presbiteriana e não de apaziguar os ânimos da luta. Pela noite, transcorriam assembleias para decidir quais seriam os próximos passos do conflito. Aqui, cabe destacar o militante José Dirceu, presidente da UEE (União Estadual de Estudantes), que foi um dos que discursaram em plenária na Filosofia.

O reinício da guerra foi no dia seguinte. Membros do CCC arrancaram as faixas expostas pelos alunos da USP na entrada da FFLCH que diziam: “CCC, FAC e MAC = repressão” e “Filosofia e Mackenzie contra a ditadura”. O confronto durou por 4 horas e mais uma vez a polícia foi chamada. O término de tal horror foram carros incendiados, o prédio da USP em chamas, janelas quebradas, pessoas feridas e a morte de José Guimarães, estudante secundário, por um tiro que supostamente veio dos estudantes de Direito do Mackenzie e membros do CCC.

Então, alunos da USP saíram com a camiseta ensanguentada do jovem falecido convocando uma passeata violenta pela cidade. A Força Pública aproveitou para ocupar as duas universidades e dar fim a luta entre os universitários. Enquanto os alunos da FFLCH se reuniam e reconheciam que não dariam para dividir espaço com os mackenzianos, estes comemoravam a “vitória” nos bares da região.

Retrocedemos mais 10 anos: 1958. Na manhã de 30 de Novembro, os paulistanos acordaram com uma notícia: a tarifa dos ônibus e bondes foram reajustadas, respectivamente, de Cr$ 3,50 para Cr$ 5,00 e de Cr$ 2,50 para Cr$ 3,00 (cruzeiros). Precavido, o prefeito Adhemar de Barros autorizou colocar policiais armados em vários pontos de ônibus. Desta vez, os estudantes do Mackenzie são os primeiros a protestarem interrompendo uma das linhas de bonde na Rua Maria Antônia.

Ao entardecer, os manifestantes já tinham bloqueado diversos acessos e fluxos dos transportes públicos no centro da cidade e então, a Força Pública foi acionada para conter a desordem pacífica com balas e bombas de efeito moral. O conflito entre policiais e os jovens (munidos de paus e pedras) percorreu a noite. Às 21 horas, os milicos receberam ordens para atirarem ao alto. A tragédia estava feita: 4 pessoas mortas, vários feridos e presos.

Apesar das paralisações que continuaram no dia seguinte, não houve acordo para as reduções das tarifas e o povo foi convidado a se retirar da Câmara dos Vereadores com golpes de cassetetes.

Agora, avancemos para 2013. O cenário é muito semelhante aos relatos anteriores: a localidade é a mesma, a luta é por justiça e pela liberdade de expressão. Encabeçado pelo MPL (Movimento Passe Livre) e inspirado pelas “revolta turca” e as passeatas de Porto Alegre, ocorreu o quarto ato em manifestação contra o aumento da tarifa dos transportes públicos. Os três anteriores foram duramente repreendidos, tiveram confusões e depredações e a cobertura da imprensa dava como “protestos de vândalos”. Convidado pelo meu amigo Thiago Bomfim dos Santos, fui apoiar o movimento.

Tarde de 13 de Junho. Nas imediações do Anhangabaú, policiais já realizavam revistas em jovens com mochilas. Antes de começar o ato, os PM´s prenderam, sem qualquer argumento, alguns manifestantes e até jornalistas que portavam vinagre (era para proteção contra os efeitos de gás lacrimogênio). Passei por uma banca e a capa principal dos jornais tinha como notícias estampadas: “Governo de SP diz que será mais duro contra o vandalismo”, “Polícia diz que vai jogar duro”. A tensão estava no ar.

Concentramo-nos em frente ao Teatro Municipal desde às 16 horas e juntos cantamos: “Ô povo acordou, o povo acordou, o povo acordou”, “Vem, vem, vem pra rua vem contra o aumento”, “O povo unido jamais será vencido”, “Se a passagem não baixar, olê, olê, olá, São Paulo vai parar”, “Mãos para o alto, R$ 3,20 é um assalto”. Quem também compareceu e tentou discursar, porém hostilizado pelos manifestantes que não queriam envolvimento de políticos, foi Plínio de Arruda Sampaio (PSOL – Partido Socialismo e Liberdade), com seus 82 anos.

A multidão ia chegando e ficamos por lá até às 18:30 horas, quando partimos pela Rua Barão de Itapetininga, tomamos a Avenida Ipiranga e então entramos na Rua da Consolação, todos caminhando tranquilamente e em paz. Paramos.  A princípio, o final da passeata seria na Praça Roosevelt, porém os líderes do movimento começaram uma negociação com o tenente-coronel Ben-Hur Junqueira Neto para alcançar a Avenida Paulista e então chegar à Assembleia Legislativa. Antes de uma resposta, avistamos a Tropa de Choque vindo pela Rua Maria Antônia.

Não adiantaram gritos de “Sem Violência”, pessoas ajoelhadas em frente aos policiais oferecendo flores e pedidos de calma. A primeira bomba foi lançada para a Consolação e tiros de balas de borracha começaram a ser disparados. O vandalismo foi iniciado pelo Choque dispersando cerca de 10.000 manifestantes e ferindo até os profissionais da imprensa. Grupos corriam para a Rua Augusta, outros para a Avenida 9 de Julho, Frei Caneca e ainda houve os que continuaram na Rua da Consolação. Mal sabíamos que a Avenida Paulista já estava tomada pelos PM´s e que desciam em direção ao alvoroço.

Eu e Thiago começamos a subir Consolação, que já estava tomada pela fumaça branca. Por um momento, ficamos encurralados e buscamos proteção na entrada de um prédio. Através de mensagens de celular trocadas entre eu e uma amiga que assistia a manifestação em casa, conseguimos dicas e, por fim, chegamos ao metrô. No lar, vi resistentes guerreiros que tomaram a Avenida Paulista, porém agora a passeata tinha perdido sua força.

Após o ataque aos jornalistas, a mídia mudou o discurso de que os atos eram de gente terrorista, baderneira e de bando de desocupados. Ainda, o MPL convocou a quinta, sexta e sétima manifestação (17,18 e 20/06/2013). Diante de tanta luta, a tarifa dos transportes públicos foi reduzida de R$ 3,20 para R$ 3,00, porém muitos outros temas foram lembrados pelas pessoas que saíram às ruas: combate à corrupção, à repreensão policial e à manipulação das grandes mídias; melhorias na saúde e educação; críticas aos gastos da Copa do Mundo; garantia de liberdade de expressão, etc.

Resta saber como será o futuro dos manifestantes atuais. Onde estarão os membros do MPL, das outras organizações sociais e os demais envolvidos nestes últimos protestos? Seguirão o mesmo caminho de José Dirceu, ex-militante contra a ditadura e agora réu no processo do escândalo do “mensalão”?; Será adormecido o anseio pela verdade dos tais gigantes?; Ou continuarão lutando pela dignidade, liberdade e justiça, contando com orgulho aos filhos e netos as histórias escritas e reescritas com sangue que transformaram os rumos do país?

Maria Antônia, qual será a próxima vez? Quem escreverá seu próximo capítulo?

Fontes:
http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESLH/Edicoes/22/artigo150222-4.asp;
http://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/05/12/mackenzie-e-a-ditadura-batalha-da-maria-antonia/;
*http://netleland.net/hsampa/mantonia/Batalha%20da%20Maria%20Antonia.html;
http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,protesto-contra-tarifa-deixou-4-mortos-em-1958,9110,0.htm;

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3 comentários sobre “Choques da Maria Antônia (1968, 1958 e 2013)

  1. Muito boa a sua descrição dos acontecimentos. Me atreveria dizer que este é um dos capítulos da história marginal como tantos outros e que nao entrará nos livros oficiais, cheios de mentiras e engodo. Fica ai o registo de quem estava la nas trincheiras da resistência. Parabens velho.

  2. Pingback: Os 10 Textos Mais Lidos em 2013 no “Caminhada & Missão” | Caminhada & Missão

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