Deus: Ditadura, Ruanda e Tsunami

Genocídio

Imagem Extraída de: http://convulssion.wordpress.com/2011/07/20/genocidio-homicidio-infanticidio-e-suicidio

Por Marcio Uno

Ao menos, três terríveis episódios estão sendo lembrados, pela humanidade, no ano de 2014. A data de 01º de abril de 1964 marcou a tomada do poder político no Brasil pelos militares; Entre o período de 06 de abril e 04 de julho de 1994, deu-se o massacre étnico ocorrido na pobre Ruanda; Em 26 de dezembro de 2004, o grande sismo gerou pelo Oceano Índico uma das maiores tragédias naturais na história.

O Golpe Militar no Brasil completou 50 anos. Após o vice de Jânio Quadros assumir o poder, setores das Forças Armadas fizeram oposição ao governo de João Goulart, este que tinha a proposta da aproximação aos movimentos sindicais e populares e da implementação das reformas de base (administrativa, agrária, bancária e fiscal). Com o discurso de temer que o Brasil se tornasse um país comunista e apoiada por governos civis e, principalmente, pelos Estados Unidos, a junta militar conseguiu derrubar Jango e ferir a bandeira da democracia brasileira.

Deu-se, então, a intervenção autoritária e centralizadora, culminando com a promulgação do Ato Institucional nº 5 que através de censura às mídias, aos meios de comunicação, aos artistas e seus trabalhos e de brutal repressão política, tentava manter a estabilidade e segurança nacional. Surgiram anos de torturas, prisões, mortes e desaparecimentos àqueles que resistiam e enfrentavam o regime imposto, contrariando o primeiro discurso de posse de Castelo Branco no Congresso Nacional: “Caminharemos para frente com a segurança de que o remédio para os malefícios da extrema esquerda não será o nascimento de uma direita reacionária.”

Faz 20 anos que o genocídio ruandês aconteceu. Após a independência da Bélgica, disputas entre os grupos étnicos hutus e tutsis somente se agravaram, e, em 1994, com o treinamento do exército e incitações à violência, hutus ortodoxos conclamam a guerra civil, sendo o estopim espalhar boatos que os minoritários (tutsis) planejavam exterminá-los e a morte do presidente Juvenal Habyarimana, através de um atentado ao avião em que viajava, atribuindo a ação aos inimigos.

Sem o representante da política do país, hutus se apropriaram da administração com vistas à eliminação de seus adversários. O resultado foi horrendo em tão pouco tempo: em 100 dias, foram devastadas por volta de 800.000 pessoas e toda a infraestrutura precária do país africano, além de milhares de mulheres serem mantidas como escravas sexuais. Enquanto isso, tropas do exterior retiravam estrangeiros do local e a própria Organização das Nações Unidas (ONU) deixava Ruanda a sua própria sorte. Poderia ser pior a carnificina se não houvesse a humanidade de alguns patriotas.

Fará 10 anos. A manhã do dia 26 de Dezembro nascia na face da Terra. Nas margens das belas praias do Pacífico, hotéis luxuosos estavam abarrotados de hóspedes de várias nações devido à época de festas de final de ano. Mal a ressaca da noite natalina se dissipava, surgiria outra pelo mar. Por volta das 08 horas, no norte da Indonésia, o terremoto submarino registrou a magnitude dentre 9,1 e 9,3, na escala Richter, sendo considerado um dos maiores da história.

O que viria seria estarrecedor. Com 14 países afetados, foram contabilizadas por volta de 230.000 pessoas mortas. Além de milhares de desabrigados e feridos, imóveis destruídos e prejuízos estimados em 10 bilhões de dólares, a Terra teve alterada sua rotação e eixo e os dias foram encurtados em 6,8 microssegundos.

Sobre os eventos citados, há três belíssimos filmes que abordam tais circunstâncias. “Batismo de Sangue”, dirigido por Helvécio Ratton, uma produção nacional inspirada no livro de mesmo título escrito por Frei Betto, traz a luta e sofrimento vividos pelos freis dominicanos que resistiam à tirania do regime militar e a relação dos religiosos com Carlos Marighella e a luta armada. “Hotel Ruanda”, por sua vez, cuja direção é de Terry George, trata sobre o extermínio em Ruanda e a coragem de Paul Rusesabagina que protege milhares de tutsis, sendo comparado o ato de bravura com o de Oscar Schindler. E, por fim, “O Impossível” de Juan Antonio Bayona, que traz o drama de uma família que se hospeda no resort da Tailândia e batalha pela sobrevivência frente às duas ondas devastadoras do Tsunami.

Sempre que ocorrem desastres, catástrofes, guerras e injustiças, a vida faz a seguinte indagação: “No caos, onde está Deus?”. Alguns religiosos rapidamente se levantam e respondem que Deus está no controle de todas as situações. Seus propósitos são indiscutíveis e que, através do mal, pune e dá lições aos terráqueos. Os céticos e ateus torturam os advogados do divino com outras questões: “Se Deus é bom, porque há o mal? Se Ele existe e tem todo poder, porque deixa tudo acontecer?”. Entretanto, há aqueles que veem Deus como o produtor do Amor e, por isso, fez a escolha pela Liberdade. Detém o Poder, mas não se iguala aos reinos tiranos. O Deus Fraco, Presente, Paradoxal.

Assim como os fatos, as obras cinematográficas citadas traduzem algo em comum. Em meio a dor, sofrimento, angústia e tristeza humana, o Divino se revela aos filhos através de atos de beleza, coragem, integridade, esperança, afeição, justiça, tais como os de Paul, Maria e Lucas, Freis, crianças, idosos, etc. Suas mãos não produzem morte e maldade, muito menos são lavadas com águas de cinismo e arrogância. Estão marcadas por sangue manchado, lágrima escorrida. Tatuadas pela desgraça ardente, aflição corrosiva.

Ele é Pai, Nele não há mudanças nem sombra de variações e sempre troca a crueldade pelo o aprazível. O Emanuel. Com Ele, irmãos se lembram de buracos deixados no trajeto, seguem o rumo e lutam por aplainar o caminho.

Fontes:

– Filme – Batismo de Sangue: Helvécio Ratton, 2007.
– Filme – Tempo de Resistência: André Ristum, 2003.
– Filme – O Impossível (Lo Imposible): Juan Antonio Bayona, 2012.
– Filme – Hotel Ruanda (Hotel Rwanda): Terry George, 2004.
– Livro – Batismo de Sangue: Guerrilha e Morte de Carlos Marighella (Frei Betto) – Editora Círculo do Livro.

 

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4 comentários sobre “Deus: Ditadura, Ruanda e Tsunami

  1. Leonardo Bastardo

    Marcio,
    Como de costume: belo texto! Parabéns!
    Não sei se deus existe ou não…
    Sei que o ser humano existe e se porta, muitas vezes, de forma lamentável.
    E cria todo tipo de justificativa para ser violento e trucidar os outros.
    E não estou falando em autodefesa. Defendo o direito do outro se defender.
    O que é bem diferente de promover um genocídio porque, supostamente, o outro teria um plano para te matar. São como os ataques preventivos do ex-presidente dos EUA (Bush Jr.). Outro belo exemplo de genocida.
    Se deus existe, Bush vai suar pra explicar certas decisões tomadas em sua passagem pelo planeta terra.
    Abraços,
    Leo

    1. Valeu querido Léo, sua presença e comentário em meu blog é muito bem vinda e aceita. Também não tenho certeza da existência de Deus, mas creio por fé. Fé que é frágil, em meio às incertezas. Sei de uma coisa, o diabo existe e habita em muitos atos horrendos como mesmo descreveu. Obrigado amigo. Abraços.

  2. Erlon

    Parabéns pelo seu texto Márcio, muito bem escrito e muito bonito. Eu, particularmente, não tenho dúvida da existência de Deus. Não o Deus das Igrejas, malvado, ardiloso, vingativo. A minha crença é uma busca espiritual intensa e bem particular. Penso que nós somos os únicos responsavéis por tudo que acontece. Seja na forma de pensar, agir ou sentir.Criamos o tempo todo consciente e inconscientemente. Quando formos capazes de nos livrar de todo mal pensamento, que por sua vez cria atitudes grotescas, todo mal sentimento e entender que o outro é apenas um espelho onde reflete a nossa própria maldade.Aí sim…talvez paramos de culpar Deus ou o Diabo por nossas próprias mazelas e possamos, enfim, olhar com clareza dentro de nossos olhos e enchergarmos dentro de nós mesmos a própria Divindade.
    Grande abraço.
    Erlon Prata

    1. Querido Erlon, fico feliz em saber que existem grandes pessoas que gostam do que escrevo, mas também aceito críticas e discordâncias em meu texto. Fico mais feliz ainda ver que temos uma ressonância de alma. Adorei seu comentário e compartilho de suas palavras. O mundo será muito melhor quando jogarmos as responsabilidades da vida para nossos ombros e deixarmos de transferir o peso para Deus, Diabo ou religião. Sou grato a sua ilustre visita e contribuição. Muito Obrigado!!!

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