Contos do Caminho

CerejeiraImagem Extraída de: http://teen-worldtw.blogspot.com.br/2012/08/iilustracao-de-post-flores-de-cerejeira.html

Por Marcio Uno

Faz tanto tempo que nem me lembro. Contaram-me que a gênese se deu do outro lado da rua.

Enfim, estava diante de um velho e conservado portão de madeira entreaberto que se espremia por entre altos muros de concreto. Medo, ao mesmo tempo, curiosidade. Voltei-me ao hospital e aos carros que, vagarosamente, desciam a rua pacata.

Reviro-me e, conscientemente, dou os primeiros passos. Não havia trajetos definidos, somente pegadas que se misturavam com as densas camadas de folhas variadas. Prostrado, inclinei o olhar aos céus. À direita, cobria-me a copa de eucaliptos e a beleza dos ipês roxos. Ambos exalavam o forte perfume da infância. Opostas, a frondosa penca do pau-brasil e a fortaleza dos bambuzais orientais traziam-me às origens. Sombra, descanso, abrigo. Inalei a mistura de odores profundamente, embora a mente pudesse distinguir isoladamente cada um deles.

Continuei pelo instigante bosque. As árvores abraçavam rascunhos de trilhas trazendo frescor nos verões e abrigos aos invernos da alma. Recordo-me de algumas roseiras que saltaram aos olhos, sendo que muitas me espinharam com os finos caules e, poucas, permitiram-me deleitar com toques carinhosos nas preciosas pétalas. Amor.

Em pequenas circunstâncias, tracei por caminhos escuros e gélidos. Enorme angústia e solidão. A parada era fundamental para não ser consumido pela síndrome do pânico. Decidi seguir os instintos pueris e ser levado pela suave brisa. O tratamento fitoterápico foi à base de sumo de frutas silvestres, de cheiro de mata virgem e da realeza de pequenos lírios brancos.

Por diversas oportunidades prossegui correndo e sempre me questionei se trotava em círculos ou se desbravava novas paisagens. Cansaço. Esbaforido, tomei fôlego procurando as águas refrigerantes da cachoeira. Sentado numa das pedras, molhei o rosto e apreciei a sinfonia da correnteza, do guinchar de macacos trepados em matas, do canto das cigarras e dos belos colibris. Consertou-me o concerto. Música, vida, magia. Revigorado, tomei as rédeas e continuei marcando os pés calejados e úmidos no barro.

Também, encontrei-me em labirintos, becos intransitáveis e obscuras bifurcações. Entre erros e acertos, a consciência e a intuição foram, respectivamente, minhas psicóloga e parceira. Momentaneamente, agi em insanidade pensando até ter definitivamente entrado no mundo das ilusões. A ideia suicida não me passou de mera elucubração, transformando-se em um rascunho esquizofrênico. Atazanou-me a bipolaridade, perturbação. Lavei os pés e tive de converter lágrimas em poeira.

Entrelacei-me ao conforto assim que, diante da estrada, não me vi solitário. Aquela meia dúzia de gente que me acompanhava quebrou o silêncio com bateres dos sapatos no chão. Juntos, construímos pontes com o intuito de criar acesso aos locais menos esperados.

Fui invadido de prazer e sedução quando deparou-se-me uma encantadora planície de carregadas videiras que eram visitadas pelos insetos à procura de doçura. Retirei-lhe cachos vistosos e experimentei um de seus frutos. A suculência e a citricidade fizeram moradas em meu corpo. Impulsivamente, arranquei-lhe mais alguns exemplares e guardei na mochila para à noite transformá-los na bebida do amor. Adiante, apanhei ervas e também as recolhi para saborear um chá quente no frio da madrugada.

Na escuridão, permiti-me uma caminhada e, pisando em falso, cai em um buraco. Gritos, dores. Muitos dormiam ou fingiam não escutar o desespero. Invadiu-me uma crise de ansiedade. Por providência celestial, três perguntaram meu nome e aonde seguia. Respondi que somente sabia por quais lugares não queria chegar. Deram-me a mão, limparam as feridas, ofereceram-me os lombos e, por alguns dias, carregaram-me pelo Caminho. Compaixão e Gratidão. Chamei-os de amigos. Já reabilitado, percorri o rumo sozinho, embora levá-los no coração.

Numa das tardes vazias, atentei-me no belo poema escrito no chão que dizia: “Pela força e grandeza dos mares em que navego, prossigo ao seu encontro ancorar o meu espírito…”. Fui interrompido por pessoas que proferiram diversos dialetos e convidaram-me para participar da ceia. Degustamos comidas dos mais variados tipos e sabores. Após, celebramos a divindade criadora da vida de formas mais distintas de cultos e crenças. Apesar de centenas de idiomas, a união transcendental era onipresente. Nesta Babel, prendeu-me a atenção pela sonoridade e força a língua italiana.

Ficamos ao redor da fogueira na madrugada. Acabamos dormindo no sereno. Acordei resfriado e úmido pelo orvalho matutino na relva. Havia pouca gente diante das brasas alimentadas por algumas centelhas e outros que se aprontavam para continuar a jornada. Levantei, realizei a oração contemplando a aurora, aqueci-me, peguei a mochila e pus-me a andar. Fui em direção de cinco irmãos, porém conforme os passos dados, dispersamos. Outro sinal de identidade: homens procuravam construir destinos que somados embelezavam tudo e todos.

Faminto. Procurei por raízes e vegetais. Feri-me, na busca, com uma espécie da flora marcando a epiderme com urticárias e alergias. Saciei-me e reservei alimento para mais tarde e, talvez quem sabe, até repartir o pão com algum viajante necessitado. Apesar de mortes, injustiças e violências presenciadas ao longo dos anos, ainda não me havia tornado completamente insensível e amargurado.

Mais uma noite ia nascendo, embora esta seria diferente. Conforme andava, dava-me conta da trajetória percorrida, da liberdade alcançada, do direito de possuir sonhos inacabados e de  carregar frustrações. De pequenos momentos de felicidade, que junto aos maiores pesadelos, transformavam em alegrias. Conquistas.

Deitei e reverenciei as estrelas. Várias cenas foram projetadas no firmamento em poucas horas. Renderam-me secas lágrimas de emoção. O gosto de mel e fel salivou a boca. Com dificuldades extremas e visíveis, juntei as poucas forças que possuía e bradei em alta voz. Reergui-me e tive a percepção de onde estava: de frente ao velho portão, agora reformado; seus muros estavam irreconhecíveis, porém ele….Ah, ele…

Com o toque das velhas e espessas mãos, tornei-me nostálgico. Ainda com o olhar deficiente e para trás, reconheci quem foram minhas companhias, além de meu rastro: pequenas pétalas de Rosas pisadas ao chão, Algumas mudas de Lírio Branco, dois ou três Amigos resistentes ao tempo e mais quatro Crianças que não compreendiam do porquê da minha saída. Ajudou-me um dos amigos a abrir a porteira, mas antes de deixá-los desvencilhei de todos os pertencentes, esvaziando a mochila.

Sinalizei com um semblante à la “arriverdeci” e passei. Insegurança. As mãos geladas sentiam os pingos da chuva grossa que formava um espelho d’água ao meio-fio. Embora não querer me surpreender com o reflexo, o cansaço e a experiência revelavam, avassaladoramente, o que me tornei. Tinha se passado tão depressa que se o Alzheimer fosse um pouco mais agudo, não me identificaria. A pele flácida não conseguiu esconder as marcas intensas de alergia que ainda eram presentes. Lembrei ser homem, mortal.

Apesar da catarata avançada, li o último poema quando, ao lado esquerdo de fora do portão, vi uma bela cerejeira. Sakura. Embelezou meu coração, este que batia lentamente. Inspirado, abaixei-me e com dedo em terra escrevi uma canção. Ainda tento lembrar as palavras utilizadas. Levantei-me. Amanhecia. Restava aguardar.

A rua tornou-se perigosa e agitada. Carros desciam em alta velocidade. Seria o avanço da modernidade ou da velhice? Crianças atravessavam a rua com facilidade. Três passaram por mim e somente o quarto se ofereceu para ajudar-me na travessia. Tentei falar-lhe sobre o bosque, orientá-lo, porém deu de ombros. Antes da despedida, peguei-o pela mão e cantarolamos uma cantiga de roda debaixo de tempestade. Agradeci-lhe.

Fui conduzido para um dos quartos imediatamente. O infinito tornou-se finito no presente. Encontrei-me face a face. A soberania de suas mãos eram tão altivas que, embora o esforço humano postergasse a vida, também estendia o sofrimento. Entreguei-lhe as folhas de louro. Coroei-a de forma sublime. Deitado, abri meus braços ao seu encontro e dei-lhe o último beijo.

Pela janela do quarto andar, vislumbrei o outro lado da rua e meus olhos se fecharam. Afinal, são sonhos que se tornam realidades. Estes, que se aprofundam em sonhos e…

Estava diante de um portão.

 

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