Senhoril de Águas Sombrias – “Sobre Meninos e Lobos”

Sombrias

Imagem Extraída de: http://ultradownloads.com.br/papel-de-parede/Reflexoes-Sombrias

Por Marcio Uno

Além de trabalhos como ator, Clint Eastwood carrega em seu currículo renomadas direções, tais como “Cartas de Iwo Jima”, “Gran Torino”, “Os Imperdoáveis”, “Menina de Ouro”. Sobre “Meninos e Lobos” é um dos belos filmes de suspense e psicodrama dirigido pelo cineasta. Baseado no livro, de Dennis Lehane, com o mesmo nome do título original “Mystic River”, a obra sagrou-se premiada pelo Golden Globe Awards – Globo de Ouro, Festival de Cannes, Prêmio César e o Oscar de 2004, este que lhe rendeu as estatuetas de melhor ator (Sean Penn) e melhor ator coadjuvante (Tim Robbins).

“Mystic River” narra a vida de três crianças norte-americanas – Jimmy Markum (Sean Penn); Dave Boyle (Tim Robbins); Sean Devine (Kevin Bacon) – que vivem em um pacato bairro de classe média de Boston e, além de serem vizinhos de rua, ambos são aproximados por um fato marcante na infância. Após 30 anos, sentimentos e memórias do passado são reverberados e as vidas, que trilhavam rumos opostos, são interligadas quando ocorre outro caso brutal: a morte da filha mais velha de Markum, Katie.

A proposta do filme é bem desenvolvida. Ainda com a passagem do tempo, as personalidades, jeitos e modos de vida dos personagens, são expostas enfaticamente através das atuações brilhantes dos atores e, o que também faz de “Sobre Meninos e Lobos” ser glorioso é que Eastwood retrata a realidade da vida de forma crua e perturbadora. Sim, a película não traz qualquer pretensão de responder as questões éticas e morais da sociedade, entretanto a de deixar o espectador angustiado e incomodado na poltrona.

Além de não solucionar os problemas da vida, alguns temas, tais como o comportamento familiar, são abordados contundentemente. Trata, de modo implícito, críticas sobre os modelos paternos, a relação de influência destes, ainda na primeira infância, para a formação integral do indivíduo e a responsabilização de atos e escolhas que, de uma forma ou outra, sempre afetam as vindouras gerações. A obra ratifica estes argumentos com constantes retomadas de cenas, diálogos e memórias que traz o passado, explica o presente e petrifica o futuro.

Outro viés encontrado no filme são os segredos perpétuos e as atitudes ligadas aos traumas sofridos na vida. Justamente por Eastwood não querer tratar sua obra tal como o pensamento filosófico e histórico da teoria da história cíclica e, muito menos de forma fatalista, é que traz à tona os círculos viciosos, estes que a psicoterapia tanto se esforça para que sejam rompidos ou transformados pela história humana.

Temos o quadro perfeito: Sean Devine que irá ser policial do estado de Massachussets para fazer e manter a justiça, algo que talvez nunca tenha encontrado; Jimmy Markum que propagará desde criança a postura da “coragem”, “malandragem” e da “autotutela” como elementos fundamentais de legitimidade; e Dave Boyle que através da introspectividade, silêncio, passividade, autocomiseração, tentará convencer aos próximos sua integridade, probidade.

Além de fatos e circunstâncias, outro ponto que interliga os três é o comportamento. Tentam, através da extravagância da bebida, a retirada de algo que se encontra engasgado. Característica dos personagens multiplamente abordada por várias obras, tais como nas literárias, ocorrida com maestria no clássico “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski. Enfim, apesar do antagonismo todos sempre são muito mais parecidos do que se acham.

“Sobre Meninos e Lobos”, assim como o filme “A Face Oculta”, de Michael Lander, é um bom material para análise de estudantes e profissionais da área de psicologia. Por conseguinte, persegue aqueles que assistem remexendo com as emoções. A impressão de insatisfação que se tem ao final do filme traz a reflexão de que esta sensação nada mais é do que a perturbação de olhar para si mesmo.

A ideia do filósofo pré-socrático, Heráclito de Éfeso, “tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti” é posta em xeque. Embora a realidade seja mutável, esta poderá se apresentar novamente ainda que com uma nova roupagem. O rio misterioso apresenta outras correntezas, entretanto guarda profundas confissões que vão se eternizando e emergindo ao longo do tempo. A água purifica e oculta. Meninos e lobos se banham no mesmo local.

Fontes:

– Filme – Sobre Meninos e Lobos: Clint Eastwood, 2003.
– Filme – Face Oculta: Michael Lander, 2010.
– Livro – Crime e Castigo (Fiódor Dostoiésvki) – Editora L &PM Pocket, 2014.

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