Aliança de Madeira

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Por Marcio Uno

Cultivo um jardim de pequeno porte em casa há alguns anos. Embora a maior parte do tempo seja eu quem o preserva, algumas pessoas me ajudam: regam, podam, plantam e cuidam das maravilhas que brotam da terra.

Recordo-me da frase do grande jardineiro Rubem Alves: “Como não acreditar em Deus se há jardins? Um jardim é a face visível de Deus e essa face me basta” (Livro Sem Fim, pág. 13, Rubem Alves, Edições Loyola, 2002).

De tantas espécies de fauna e flora residentes em mansão divina, um dos plantios que se destaca diante dos demais é um pequeno pedaço de tronco e um lindo lírio branco que é sustentado por entre os nós da madeira.

Toda vez que o contemplo tenho a gostosa sensação da eternidade se perpetuando em minha alma. Sem contar nas inspirações que me transmite para escrever sobre os encantos, o amor e a vida. A verdade é que sua formosura se transforma em estrofes poéticas dignas de silêncio.

Sua fortaleza pelas raízes e cepa retorcidas é contrastada pela realeza das alvas e altivas pétalas. Simboliza a criatividade, sabedoria, longevidade, reserva de calor e vitalidade. A habitação imortal que se relaciona levianamente com a natureza finita e desabrigada.

Para demonstrar tal paixão, feri-o. Fiz pequenos desenhos de corações em seu caule. Em mim, imprimi uma tatuagem na pele que simboliza esta infinita amizade. Pequenos gestos de uma aliança. Pois são de marcas que se estabelecem pactos na vida.

Muito me orgulha ser o cuidador do pequeno exemplar que expande sentimentos, contagiando pessoas, animais e o habitat em que vive. Traz beleza aos olhos de quem o enxerga, atrai os mais lindos pássaros e insetos e, com o auxílio da calmante brisa, oferta a todo o canteiro o que tem de melhor, um agradável perfume.

Também é gratificante acompanhar seu desenvolvimento ao longo da relação simbiótica dentre nós. Ainda, ser participante dessa evolução me faz esquecer a própria identidade ou, talvez, faz-me projetar a autoimagem em suas seivas.

Preparar-lhe terreno, lançar as sementes, irrigar o solo, eliminar as folhas secas e os ramos defeituosos, protegê-lo das pragas e daninhas, presenciar o aparecimento das brotações, retirá-lo do espaço pequeno para um que seja mais confortável e que lhe facilite o crescimento….

Se eu sofro de Psicose, Demência, Esquizofrenia, Amnésia, Autismo? Pouco importa qual seja o rótulo psiquiátrico que me acompanha, pois vou mesmo festejando este quinquênio, renovando os votos e agradecendo ao mestiço bonsai por dar existência ao lindo quintal. Consequentemente, sobrevivência ao jardineiro.

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6 comentários sobre “Aliança de Madeira

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