Danço, Logo Existo

IMG_20150419_223949043Por Marcio Uno

Gosto de dançar na vida. Aliás, não há problemas se alguém não tem desejo em ser levado pela música, pois esta mesma se encarrega de ditar ritmos. A criação é a mãe que vai parindo aos sons, em vários movimentos, ajudando suas criaturas a darem os primeiros passos nas pistas do salão.

Qual brasileiro já não teve de entrar na roda de samba e acompanhar frases e refrões melódicos juntamente com os batuques das dificuldades enfrentadas? E quase sempre sem carnavais, folias, máscaras, fantasias. É na palma da mão, com passadas alternadas, sincopado ou não, quer seja o samba-rock, sambalanço, de gafieira, do morro ou de raiz, todos com a malandragem e improvisação da vida aos pés, fazendo jus a origem sofredora da agitação.

Há fases em que a rebeldia e protesto se fazem necessários no caminho. Com melodias estreitas, sons amplificados, contratempo acentuado, utilizo-me do rock para demonstrar o descontentamento com o “status quo” e balançar as estruturas ultrapassadas. Incorpo o heavy metal, pop rock, punk rock, e com o corpo frenético, pulo, grito e uso o bate-cabeça como forma de demonstrar atitudes e inquietações frente à realidade.

Essas três décadas de história se resumem ao meu envolvimento contínuo com o tango. Na forma binária e com o compasso de dois por quatro, vou traçando as pernas no mais confuso dos estilos, de modo a não me deixar tropeçar no palco das afetividades. Entretanto, muitas são as vezes que a queda se torna inevitável, devido ao corpo flácido e embriagado. Os pensamentos tristes e dramáticos são carregados de supostos antagonismos como a paixão, a sexualidade e a agressividade. Milongas!!!

Ah, e aqueles dias que escolho tocar na vitrola o balanço latino-americano, alegre e sensual da salsa? Os ritmos de percussão rápidos e complicados, de composição quaternária, com a miscelânea do mambo, da rumba e do cha cha cha, conotam a escolha da sabedoria para regir as pisadas. Sapore, sapiência, dizia o cozinheiro Rubem Alves. Bem quero é dar pitadas de sal e jogar belo de um tempero na vida.

São nos momentos de dores, perseguições, lutas e angústias, que desabafo todos os sentimentos através da guitarra aguda, dos adufes, dos penteados, das roupas chamativas e da castanhola. Invoco a divindade mediante o flamenco espanhol e com movimentos circulares dos braços e apontado-os para o céu e para a terra, demonstro minha oração por gratidão, auxílio e abrigo.

A tarantela é a dança que mais me apetece. Através do círculo, da troca de casais e da junção de outras pessoas, os movimentos em nome do coletivismo, dos encontros e desencontros, das amizades, da família e do companheirismo, são os que rompem com os ciclos da morte e solidão. Cada gesto efetuado faz-me recordar que ser humano é compartilhar.

A exigência dos músculos, os rodopios e malabarismos de um dos patrimônios da humanidade, o frevo,  simbolizam muito bem o cotidiano das metrópoles: agitação, rotinas extremamente aceleradas, eferverscência. E não há refresco para o frevo de rua, de bloco ou de canção, pois o guarda-chuva é a arma que combate os rivais arrefecedores.

Ainda sou um aprendiz da valsa, seja a vienense ou a inglesa. Com extremas dificuldades, tento acompanhar o compasso de três tempos, as oscilações do corpo no vaivém e das voltas executadas. O que se parece tão simples não obedece as ações corporais: comemorar os momentos únicos e festejar no ápice da festa com uma alegre orquestra, deixando de lado os medos, traumas, sofrimentos; permitir-se ser feliz.

Embora seja linda a apresentação grupal de sincronismos e intensidades de notas emitidas com o sapateado, gosto muito do tap dance solitário. Aprecio escutar os ruídos da alma, a deixar que o corpo produza nos solados de madeira coreografias agradáveis ao coração, a meditar nas vibrações que buscam a leveza e elegância dos passos marcados no chão.

E quando se aproximar da meia-noite, antes que todo o brilho se acabe, gostaria de bailar pela celebração da vida e a recepção da morte como as tribos indígenas da Amazônia. Nas badaladas da torre do relógio quero ouvir a música da metamorfose ecoar pela nova estrada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s