O Encanto do Palhaço

malaImagem Extraída de: http://www.correrpelomundo.com.br/2011/04/fazendo-as-malas-para-correr/

Por Marcio Uno

A noite dava uma trégua. Os pequenos feixes de luz que percorriam pelo trailer no qual Armando tinha adentrado minutos antes, foram suficientes para que se conseguisse tirar a fantasia e a maquiagem e se despisse do personagem que tanto o sufocava há dias. A coragem suplantou todas as espécies de dissimulações.

Olhando ao espelho enquanto limpava os últimos traços de tinta sobre o rosto, lembrou do início da história nos picadeiros. Desde as trapalhadas cometidas pelo iniciante da arte até se tornar o profissional do riso. Voltou ao presente. As rugas que marcavam a pele, agora flácida, revelavam os anos percorridos e os poucos que ainda lhe restavam.

Por um instante passou-lhe na mente o espetáculo da vida. Questionou-se se tudo aquilo tinha o devido valor. Sabia quais eram os limites do palhaço. Lembrou-se do equilibrista que, lá do alto, percorre a linha tênue tentando encontrar a postura para atravessar ao outro lado. Identificou-se. Olhando para a grande mala, sussurrou: “Chegou, quero o equilíbrio”.

Com toda cautela para não fazer barulho e acordar os demais, levantou a pesada bagagem. Caminhou até diante da porta. Temeu e tremeu. Tentou chorar, mas as lágrimas eram suas grandes inimigas. Abriram-se os portões. Deu de cara com as pequenas chamas que alimentavam a decadente fogueira: lugar de histórias, causos, criatividades, coletividade e gargalhadas nas noites profundas.

Desceu seguramente pela escada. Sentiu os pés tocar sobre o solo de barro misturado com serragem. Aquele trajeto lhe era conhecido, atravessava costumeiramente ali para chegar nos bastidores. Já na cobertura, lustrava as botas sujas com a pequena toalha exclusiva para tal fim. Agora, apesar do trecho ser o de rotina, na bifurcação à frente escolheria pelo caminho desconhecido.

Tentou procurar ao redor dos reboques alguém que, porventura, estivesse o olhando ou passeando pelo terreno com insônia. Parou a respiração por segundos e fez silêncio. Somente escutou o galo cantando, o estalar das brasas, o vento frio passeando pelo vale descampado e o eco do apito do primeiro trem que logo mais prosseguiria a viagem. Este era o mesmo som que presenciou quando descia da estação anos atrás: cruel nostalgia.

O que lhe seria mais torturante viria adiante: recordou-se de que, quando moleque, sua genitora tinha-lhe inscrito no programa Circo-Escola da pequena cidade de Esperança para ser o encantador de ilusões e não de sorrisos. Não era religioso nem supersticioso, entretanto a crença carregada por décadas era a de que nunca seria realizado sem a benção maternal. A teimosia fazia questão de não lhe deixar sossegado.

E continuou: após suas apresentações, corria atrás das cortinas e através da fresta criada ficava extasiado com os truques do colega. Quantas vezes queria entrar novamente em cena para deixar o público boquiaberto com aqueles feitiços e, quem sabe, aproveitar para sumir com os perturbadores pensamentos que o atormentava. Virou-se para trás e avistou o abrigo do mágico pela última vez. Era manhã, porém tarde demais.

A poucos metros de deixar o chão de terra para pisar na rodovia, sentiu alguém o seguindo e acompanhando os passos arrastados e tristes. Virou-se bruscamente e agachou-se para abraçar e despedir-se de Fofão, o velho cachorro que convivia com a trupe circense. Pensou em mudar o nome do animal para Baleia, porém lembrou-se de que apesar do vira-lata ser mais humano que os demais, as vidas secas não era encenada em um sertão geográfico.

Quando Armando colocou o primeiro pé no asfalto ainda frio, o cão o deixou prosseguir. Pensou: “Até o animal sabe qual seu limite. Não deveria eu conhecer os meus?” Uma fotografia pousou-lhe na mente. “Ah, e o malabarista, que sabedoria!!!” Queria se apropriar do tempo de jogar tudo para cima, respirar e quando as coisas estivessem para se espatifar no chão, segurar um por um com naturalidade. E assim, recomeçar o ciclo.

As risadas provocadas, o carinho da plateia, os minutos de atenção exclusiva já não faziam mais parte do currículo?

Foi então que sentiu, atrás de seu corpo, as mãos de alguém encobrindo seus olhos. Apalpou-as e não acreditou que ela estivesse aparecido. Na verdade, ela estava o perseguindo por toda noite e não foi sequer notada. Trazia trajes de arlequim, com nariz de palhaço, pintura na face e uma peruca maluca que tinha ganhado de Armando em um remoto dia do amigo. Do lado da formosa mulher, uma bolsa de roupas. Ao fundo, avistou Fofão abanando o rabo e as bandeirinhas tremulando por cima da lona.

Apesar dos problemas, transtornos e equívocos, ainda alguém apostava na reconstrução. Ele sorriu por dentro, algo que não lhe acontecia há muito tempo. Tinha a consciência de que também necessitava receber cuidados, abrigo, afagos. O espanto lhe fez vida e sabia que, a partir de então, estaria acompanhado de amor, de sentido, de satisfação, de Felicidade.

Esta o ajudou segurando uma alça da bagagem ainda que bem ciente do conteúdo carregado. Os primeiros passos dados na estrada a quatro pés eram iluminados pelo maravilhoso nascente do sol ao horizonte. Caminharam juntos por muitas léguas a ponto de perderem a razão da distância. Dividiu-se a carga. Felicidade com Armando; Armando com Felicidade.

Era uma vez o encanto do palhaço…

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