Imagem Extraída de http://www.cantodapaz.com.br/blog/2008/11/22/papai-noel-existe-natal/

Por Marcio Uno

“Querido Noel do Céu,

Há quanto tempo não falo com o Senhor, não é mesmo? Mas é claro que sabe o quanto a vida é uma correria: trabalho, estudos, igreja, etc. Já faz alguns meses que não lhe escrevo, porém nesta época de final de ano não há como me esquecer de ti, afinal comemoramos aqui no Ocidente o nascimento de seu Filho. Igrejas são lotadas pelos teatros, musicais, festas nas apresentações deste evento milenar, ficam entupidas por fiéis que buscam consagrar o próximo ano que há de vir e é lógico, aproveitam para fazerem seus pedidos, assim como eu realizo aqui nesta humilde carta.

Eu entendo que também está bastante atarefado ou melhor dizendo, sempre está, ainda mais em períodos como este, porém sei que dará prioridades a minha pessoa. Eu passarei na fila de petições. Sabes como fui um bom cristão neste ano: dei meu dízimo até de meu décimo terceiro, não faltei em nenhum dos cultos, isolei o pecado e o mundanismo de minha vida, não bebi, não fumei, não falei palavrão, não escutei músicas profanas, obedeci e honrei meus líderes espirituais até mesmo quando seus atos não eram coniventes com minha ética, sendo fiel aos princípios bíblicos de  Hebreus 13:17 que ordena a submissão e obediência aos “anjos ungidos”.

Venho a Ti para pedir que, no próximo ano, eu esteja livre de todo o mal que assola a Terra e seja blindado espiritualmente. Que o sofrimento humano não me faça uma de suas vítimas e que os infortúnios, desastres e as contigências não me escolham no sorteio da vida. Suplico que espante de minha porta as doenças, os assaltos, o carro quebrado, as mortes de familiares e queridos, as injustiças. Sei que cumprirá esta promessa em minha vida, por que não é sua Palavra que diz no Salmo 91 (minha leitura diária) que nenhum mal alcançará seus servos, enviará seus anjos para nos proteger e nunca seremos atingidos?  

Também escrevo pedindo para que 2010 seja um ano cheio de prosperidade e riqueza material. Que eu não perca meu emprego, seja multiplicado meu salário, eu possa trocar de casa e comprar um carro 0 km; Que o sucesso profissional seja o companheiro inseparável e que atenda minhas orações de colheita quando dizimo em Sua casa. Não se esqueça das muitas campanhas que participarei a começar em Janeiro com ”12 meses de clamor para 12 meses de benção”, aquela que faço todo o ano para ter sempre meu celeiro farto. Estou sendo bíblico, pois o Senhor declara em II Coríntios 9:6 que se semearmos muito, colheremos com abundância.

É lógico, também não posso deixar de esquecer das coisas espirituais. Clamo para que minha espiritualidade contigo aumente e derrame uma unção poderosa e sobrenatural em minha vida para realizar grandes prodígios, sinais miraculosos e curas espetaculares. Que eu seja conhecido como o grande Homem de Deus e sejam atraidas milhões de pessoas pelo meus feitos gloriosos. Fazes de mim um canal de benção de tal forma que eu possa percorrer o mundo viajando a lugares maravilhosos, comendo e se hospedando em hotéis luxuosos e lotando estádios em virtude de pregar o evangelho de Cristo. Para aqueles que realizam sua obra, é reservado como pagamento do serviço realizado comer o melhor dessa Terra (Isaías 1:19). Ah sim, tudo isso é para Tua glória Pai, bem como relata Romanos 11:36.

Continua…

Assim, além de pedir a ti, exerço e determino com a fé igual de Jacó, que lutou contra Deus e não o deixou ir até que tivesse sua benção liberada no céu.

Deixo minha Bíblia aberta para tomar posse o quanto mais rápido possível. Aguardo imediatamente suas renas celestiais!!!

Ah sim, ia me esquecendo dos agradecimentos: Agradeço pelas graças já alcançadas em 2010″

De seu Filho preferido,

Eu, somente eu.”

Após ler a carta, o bom velhinho leva o papel junto ao seu peito, coça levemente sua barba e, com um suspiro profundo e ar de tristeza, diz: “- Até quando permanecerão na ingenuidade, meus amados pequeninos?”

Imagem extraída do site: http://br.olhares.com/lirio_branco_foto385533.html

Por Marcio Uno

Vai nascendo a esperança
Despontando no horizonte do Oriente
Brotará nos corações a virtude do amor
Pequena, que afeiçoa a lembrança

A surgir em terras campestres
Simples, colorindo a velha estrada
Transformará os olhos na magia da paixão
Bela, que revela as mãos do Mestre

Vem atraindo joaninhas e sabiás
A sintonia da natureza em sinfonia
Inspirará ao mais sábio trovador
Encantadora, que lindo canto nos lábios traz

No cativar da luz da aurora
Com suave aroma invade
Enobrecerá as pétalas da história
Princesa, que perfuma a imensa flora

Descansando nos vales da vida
É o refrigério chegando da fonte
Repousará no colo das águas
Serena, que a brisa da alma abriga

A semear nas trilhas sombrias
Se multiplicando noutros jardins
Cultivará no crescente fértil da terra
Amiga, que a seiva traz as companhias

Do profundo silêncio das matas emana
Um ressoar que assola a quietude e solidão:
Lírio Branco, floresce em mim
Filha minha, doce e terna Polyana

Por Marcio Uno

É com imenso prazer e satisfação que divulgo o lançamento do livro “Nunca é por Tudo”, de Malu Rizardi. Ela é escritora de “Rolo Compressor” e minha grande amiga. Publiquei em meu blog dois de seus poemas: “O mais alto vôo” e “Honra de Sonhador”. Vale a pena conhecê-la e prestigiá-la, espero por você lá.

“Insistindo na ousadia de unir prosa e poesia para abordar questões humanas, a escritora Malu Rizardi cria, nesta ficção, uma “realidade absurdamente real” para inquirir o tempo, o espaço, e as possibilidades de liberdade. Se em Rolo Compressor (2005) a intenção foi investigar como os sonhos se transformam, esvaecem e desvirtuam no decorrer da vida em uma sociedade moldada pelos interesses do capital, neste seu novo romance Malu indaga o quanto temos condições de sermos senhores de nossas vidas. Se Nunca é por tudo, pelo que pode ser? O romance envolve e provoca.”

Deus impotente

Imagem Extraída de: blog.cancaonova.com/…/frases-que-marcam/

Por Moises Alves

O historiador francês Jean Delemeau escreveu uma excelente obra: “A espera da Aurora. Um cristianismo para o amanhã” (Titulo Original: Guetter l’ aurore – Un christanisme pour demain). No capítulo VI (o negro e branco), no terceiro tópico que vem com o título: “A não – potência de Deus”, Delemeau faz as seguintes afirmações: “Deus ficou entre nós para sofrer, como nós, com a violência do mal ele morreu no abandono mais completo. O Deus para o qual os cristãos oram todos os dias gemeu em um berço segundo Lutero, e cresceu em um meio modesto” [1].

Tal afirmação abre caminho para pensar-mos a genialidade de Deus em ser “escombro humano” (Delemeau). Para o autor, o Deus todo poderoso que se tornou um escombro humano é o âmago do paradoxo cristão e da loucura da cruz. Apesar dessa loucura a teologia da cruz traz a reflexão de um Deus em simpatia com o ser humano, assumindo nossa condição de limitação e sofrimento, como enfatiza Paulo Roberto Gomes: “A teologia da cruz nos faz repensar as imagens divinas, quando nos deparamos com um Deus que nos quer libertar da alienação e nos conduzir a humanização e que revela também o desejo humano de Deus” [2].

A teologia da cruz nos ensina na autêntica “loucura” proferida pelo apóstolo São Paulo, repensar Deus na perspectiva da impotência, da solidão, também sofrendo com os marginalizados da história.

Ora, se na cruz nós percebemos a impotência de Deus, ela mesma nos ensina até que ponto um Deus apaixonado iria pelo ser humano. O Deus em Jesus abre caminho para a afirmação fantástica de Delemeau sobre o desejo de Deus em compartilhar a nossa condição: “Ele se identificou com o viajante abandonado semimorto na estrada para Jericó, com aquele que tem fome e sede e não tem o que vestir, com o prisioneiro, com o doente e com o estranho. Deus é também a criança judia enforcada em um campo da morte” [3].

O Deus frágil também está ao lado do ser humano em sua aflição. No horror da cruz nós encontramos um “Deus escandaloso” (Vitor Westhelle), mas também um “Deus apaixonado” (Jurgen Moltmann) fazendo sinfonia com o escândalo e a loucura.

Nessa perspectiva do Deus impotente apresentado por Delemeau, a teologia da cruz como vimos revela de maneira evidente a radicalidade de Deus no humano que sofre, abrindo caminhos para repensarmos a crucificação do divino na face dos pobres do terceiro mundo, uma espiritualidade fincada no ser do pobre sofredor para o ser de Deus impotente.

As igrejas que saíram de Medellín e Puebla vislumbram o divino partilhando a condição humana de sofrimento, pobreza e marginalização. A cruz e a morte acompanham os projetos alternativos a sociedade vigente, tratando especificamente da América Latina, em nosso caso, Leonardo Boff diz: “de um capitalismo periférico e elitista, marginalizador das grandes maiorias de nosso povo” [4]. Os processos de exploração gerando acumulação de um lado e miséria de outro, instaura nos oprimidos crucificados.

Com Deus na história, há um sentimento de libertação e ressurreição em um contexto de cruz e morte. Esse pensar teológico nasce da realidade, do índio injustiçado, do trabalhador explorado, do idoso enganado, da mãe e o pai que enterra seus filhos assassinados, da menina assediada, enquanto durar a história o homem-Deus também sofre com eles.

Antes de finalizar este assunto é imprescindível exibir uma das poesias de nosso poeta João Augusto dos Santos, camponês de Inhapi, Alagoas. Defendendo a tese de que a doutrina de um Deus Defensor da ordem estabelecida não combina com a revelação do Deus feito homem, o nosso poeta-camponês diz:

“Se Jesus fosse culpado da fome e do sofrimento, Ele não tinha vindo ao mundo para libertar a gente.

Quando eu era inocente, eu pensava diferente, que Jesus era o culpado da morte e do sofrimento.

Eu agora estou entendendo, que Ele veio libertar a gente da fome, da doença, da morte, do sofrimento.

A era de oitenta e quatro foi uma calamidade.

Morreu criança de fome e muito velho de idade, mas não foi falta de alimento que o mercado estava lotado, foi falta de salário justo e homem de boa vontade.

Na frente de emergência houve um grande sofrimento, morreu muito pobre de fome, mas enricou muita gente a custa do suor dos pobres trabalhando no sol quente, outro morrendo de fome pra ganhar três mil e trezentos.

Teve gente naquele tempo que comprou um móvel de televisão pagando no fim do mês uma boa prestação.

Outro morrendo de fome mas não foi falta de pão, que o pão estava sobrando lá na mesa do patrão.

Chego na mesa do rico, vejo tudo em fartura, carne, arroz e farinha, muita fruta e verdura.

Chego na casa do pobre, só encontro angu puro, as vezes quando acontece com um tiquinho de rapadura.

O horror que esta no mundo é de cortar o coração: Tanto filho abandonado, tanto pobre sem o pão, tanto rico de milhão chupando sangue de crista sem querer nem dar um prego numa barra de sabão “[5].
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[1] DELEMEAU, Jean. 2007, p.109
[2] GOMES, Paulo Roberto. O Deus im-potente. O sofrimento e o mal em confronto com a cruz. São Paulo, Loyola, 2007 p. 198
[3] DELEMEAU, Jean. 2007, p. 110, 111
[4] BOFF, Leonardo. Do Lugar do Pobre. Petrópolis, Vozes, 1997, p. 129
[5] RICHARD, Pablo. Org. Raízes da Teologia latino-americana. São Paulo, Paulinas, 1987, p. 362, 363

 eternidade

Poema de Cecília Meireles, compartilhada por Léo em meu aniversário e que li no livro “Feridos em nome de Deus”, autoria de Marília de Camargo César:

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

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