Manifesto do Projeto Brasil Nação

Por Marcio Uno

Hoje assino e faço parte com muito orgulho desse grupo, capitaneado pelo ex-ministro Bresser Pereira, que milita pelo manifesto inicial “Projeto Brasil Nação” encabeçado por professores, políticos, economistas, advogados, etc, dentre tantos e plurais “Brasis” que se convergem à construção de um novo modelo de Nação.

http://www.bresserpereira.org.br/manifesto.asp

Manifesto do Projeto Brasil Nação

O Brasil vive uma crise sem precedentes. O desemprego atinge níveis assustadores. Endividadas, empresas cortam investimentos e vagas. A indústria definha, esmagada pelos juros reais mais altos do mundo e pelo câmbio sobreapreciado. Patrimônios construídos ao longo de décadas são desnacionalizados.

Mudanças nas regras de conteúdo local atingem a produção nacional. A indústria naval, que havia renascido, decai. Na infraestrutura e na construção civil, o quadro é de recuo. Ciência, cultura, educação e tecnologia sofrem cortes.

Programas e direitos sociais estão ameaçados. Na saúde e na Previdência, os mais pobres, os mais velhos, os mais vulneráveis são alvo de abandono.

A desigualdade volta a aumentar, após um período de ascensão dos mais pobres. A sociedade se divide e se radicaliza, abrindo espaço para o ódio e o preconceito.

No conjunto, são as ideias de nação e da solidariedade nacional que estão em jogo. Todo esse retrocesso tem apoio de uma coalizão de classes financeiro-rentista que estimula o país a incorrer em deficits em conta corrente, facilitando assim, de um lado, a apreciação cambial de longo prazo e a perda de competitividade de nossas empresas, e, de outro, a ocupação de nosso mercado interno pelas multinacionais, os financiamentos externos e o comércio desigual.

Esse ataque foi desfechado num momento em que o Brasil se projetava como nação, se unindo a países fora da órbita exclusiva de Washington. Buscava alianças com países em desenvolvimento e com seus vizinhos do continente, realizando uma política externa de autonomia e cooperação. O país construía projetos com autonomia no campo do petróleo, da defesa, das relações internacionais, realizava políticas de ascensão social, reduzia desigualdades, em que pesem os efeitos danosos da manutenção dos juros altos e do câmbio apreciado.

Para o governo, a causa da grande recessão atual é a irresponsabilidade fiscal; para nós, o que ocorre é uma armadilha de juros altos e de câmbio apreciado que inviabiliza o investimento privado. A política macroeconômica que o governo impõe à nação apenas agravou a recessão. Quanto aos juros altíssimos, alega que são “naturais”, decorrendo dos déficits fiscais, quando, na verdade, permaneceram muito altos mesmo no período em que o país atingiu suas metas de superávit primário (1999-2012).

Buscando reduzir o Estado a qualquer custo, o governo corta gastos e investimentos públicos, esvazia o BNDES, esquarteja a Petrobrás, desnacionaliza serviços públicos, oferece grandes obras públicas apenas a empresas estrangeiras, abandona a política de conteúdo nacional, enfraquece a indústria nacional e os programas de defesa do país, e liberaliza a venda de terras a estrangeiros, inclusive em áreas sensíveis ao interesse nacional.

Privatizar e desnacionalizar monopólios serve apenas para aumentar os ganhos de rentistas nacionais e estrangeiros e endividar o país.

O governo antinacional e antipopular conta com o fim da recessão para se declarar vitorioso. A recuperação econômica virá em algum momento, mas não significará a retomada do desenvolvimento, com ascensão das famílias e avanço das empresas. Ao contrário, o desmonte do país só levará à dependência colonial e ao empobrecimento dos cidadãos, minando qualquer projeto de desenvolvimento.

Para voltar a crescer de forma consistente, com inclusão e independência, temos que nos unir, reconstruir nossa nação e definir um projeto nacional. Um projeto que esteja baseado nas nossas necessidades, potencialidades e no que queremos ser no futuro. Um projeto que seja fruto de um amplo debate.
É isto que propomos neste manifesto: o resgate do Brasil, a construção nacional.

Temos todas as condições para isso. Temos milhões de cidadãos criativos, que compõem uma sociedade rica e diversificada. Temos música, poesia, ciência, cinema, literatura, arte, esporte – vitais para a construção de nossa identidade.

Temos riquezas naturais, um parque produtivo amplo e sofisticado, dimensão continental, a maior biodiversidade do mundo. Temos posição e peso estratégicos no planeta. Temos histórico de cooperação multilateral, em defesa da autodeterminação dos povos e da não intervenção.

O governo reacionário e carente de legitimidade não tem um projeto para o Brasil. Nem pode tê-lo, porque a ideia de construção nacional é inexistente no liberalismo econômico e na financeirização planetária.

Cabe a nós repensarmos o Brasil para projetar o seu futuro – hoje bloqueado, fadado à extinção do empresariado privado industrial e à miséria dos cidadãos.
Nossos pilares são: autonomia nacional, democracia, liberdade individual, desenvolvimento econômico, diminuição da desigualdade, segurança e proteção do ambiente – os pilares de um regime desenvolvimentista e social.

Para termos autonomia nacional, precisamos de uma política externa independente, que valorize um maior entendimento entre os países em desenvolvimento e um mundo multipolar.
Para termos democracia, precisamos recuperar a credibilidade e a transparência dos poderes da República. Precisamos garantir diversidade e pluralidade nos meios de comunicação. Precisamos reduzir o custo das campanhas eleitorais, e diminuir a influência do poder econômico no processo político, para evitar que as instituições sejam cooptadas pelos interesses dos mais ricos.

Para termos Justiça precisamos de um Poder Judiciário que atue nos limites da Constituição e seja eficaz no exercício de seu papel. Para termos segurança, precisamos de uma polícia capacitada, agindo de acordo com os direitos humanos.

Para termos liberdade, precisamos que cada cidadão se julgue responsável pelo interesse público.

Precisamos estimular a cultura, dimensão fundamental para o desenvolvimento humano pleno, protegendo e incentivando as manifestações que incorporem a diversidade dos brasileiros.

Para termos desenvolvimento econômico, precisamos de investimentos públicos (financiados por poupança pública) e principalmente investimentos privados. E para os termos precisamos de uma política fiscal, cambial socialmente responsáveis; precisamos juros baixos e taxa de câmbio competitiva; e precisamos ciência e tecnologia.

Para termos diminuição da desigualdade, precisamos de impostos progressivos e de um Estado de bem-estar social amplo, que garanta de forma universal educação, saúde e renda básica. E precisamos garantir às mulheres, aos negros, aos indígenas e aos LGBT direitos iguais aos dos homens brancos e ricos.
Para termos proteção do ambiente, precisamos cuidar de nossas florestas, economizar energia, desenvolver fontes renováveis e participar do esforço para evitar o aquecimento global.

Neste manifesto inaugural estamos nos limitando a definir as políticas públicas de caráter econômico. Apresentamos, assim, os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil Nação.

1 Regra fiscal que permita a atuação contracíclica do gasto público, e assegure prioridade à educação e à saúde
2 Taxa básica de juros em nível mais baixo, compatível com o praticado por economias de estatura e grau de desenvolvimento semelhantes aos do Brasil
3 Superávit na conta corrente do balanço de pagamentos que é necessário para que a taxa de câmbio seja competitiva
4 Retomada do investimento público em nível capaz de estimular a economia e garantir investimento rentável para empresários e salários que reflitam uma política de redução da desigualdade
5 Reforma tributária que torne os impostos progressivos

Esses cinco pontos são metas intermediárias, são políticas que levam ao desenvolvimento econômico com estabilidade de preços, estabilidade financeira e diminuição da desigualdade. São políticas que atendem a todas as classes exceto a dos rentistas.

A missão do Projeto Brasil Nação é pensar o Brasil, é ajudar a refundar a nação brasileira, é unir os brasileiros em torno das ideias de nação e desenvolvimento – não apenas do ponto de vista econômico, mas de forma integral: desenvolvimento político, social, cultural, ambiental; em síntese, desenvolvimento humano. Os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil são seus instrumentos – não os únicos instrumentos, mas aqueles que mostram que há uma alternativa viável e responsável para o Brasil.

Estamos hoje, os abaixo assinados, lançando o Projeto Brasil Nação e solicitando que você também seja um dos seus subscritores e defensores.

30 de março de 2017

Subscritores originais

  • LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, economista
  • ELEONORA DE LUCENA, jornalista
  • CELSO AMORIM, embaixador
  • RADUAN NASSAR, escritor
  • CHICO BUARQUE DE HOLLANDA, músico e escritor
  • MARIO BERNARDINI, engenheiro
  • FERNANDO BUENO, empresário
  • ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE, físico
  • ROBERTO SCHWARZ, crítico literário
  • PEDRO CELESTINO, engenheiro
  • FÁBIO KONDER COMPARATO, jurista
  • KLEBER MENDONÇA FILHO, cineasta
  • LAERTE, cartunista
  • JOÃO PEDRO STEDILE, ativista social
  • WAGNER MOURA, ator e cineasta
  • VAGNER FREITAS, sindicalista
  • MARGARIDA GENEVOIS, ativista de direitos humanos
  • FERNANDO HADDAD, professor universitário
  • MARCELO RUBENS PAIVA, escritor
  • MARIA VICTORIA BENEVIDES, socióloga
  • LUIZ COSTA LIMA, crítico literário
  • CIRO GOMES, político
  • LUIZ GONZAGA DE MELLO BELLUZZO, economista
  • ALFREDO BOSI, crítico e historiador
  • ECLEA BOSI, psicóloga
  • LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, escritor
  • MANUELA CARNEIRO DA CUNHA , antropóloga
  • FERNANDO MORAIS, jornalista
  • LEDA PAULANI, economista
  • ANDRÉ SINGER, cientista político
  • PAUL SINGER, economista
  • LUIZ CARLOS BARRETO, cineasta
  • PAULO SÉRGIO PINHEIRO, sociólogo
  • MARIA RITA KEHL, psicanalista
  • ERIC NEPOMUCENO, jornalista
  • CARINA VITRAL, estudante
  • LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO, historiador
  • ROBERTO SATURNINO BRAGA, engenheiro e político
  • ROBERTO AMARAL, cientista político
  • EUGENIO ARAGÃO, subprocurador geral da república
  • ERMÍNIA MARICATO, arquiteta
  • TATA AMARAL, cineasta
  • MARCIA TIBURI, filósofa
  • NELSON BRASIL, engenheiro
  • GILBERTO BERCOVICI, advogado
  • OTAVIO VELHO, antropólogo
  • GUILHERME ESTRELLA, geólogo
  • JOSÉ GOMES TEMPORÃO, médico
  • LUIZ ALBERTO DE VIANNA MONIZ BANDEIRA, historiador
  • FREI BETTO, religioso e escritor
  • HÉLGIO TRINDADE, cientista político
  • RENATO JANINE RIBEIRO, filósofo
  • ENNIO CANDOTTI, físico
  • SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES, embaixador
  • FRANKLIN MARTINS, jornalista
  • MARCELO LAVENERE, advogado
  • BETE MENDES, atriz
  • JOSÉ LUIZ DEL ROIO, ativista político
  • VERA BRESSER-PEREIRA, psicanalista
  • AQUILES RIQUE REIS, músico
  • RODOLFO LUCENA, jornalista
  • MARIA IZABEL AZEVEDO NORONHA, professora
  • JOSÉ MARCIO REGO, economista
  • OLÍMPIO ALVES DOS SANTOS, engenheiro
  • GABRIEL COHN, sociólogo
  • AMÉLIA COHN, socióloga
  • ALTAMIRO BORGES, jornalista
  • REGINALDO MATTAR NASSER, sociólogo
  • JOSÉ JOFFILY, cineasta
  • ISABEL LUSTOSA, historiadora
  • ODAIR DIAS GONÇALVES, físico
  • PEDRO DUTRA FONSECA, economista
  • ALEXANDRE PADILHA, médico
  • RICARDO CARNEIRO, economista
  • JOSÉ VIEGAS FILHO, diplomata
  • PAULO HENRIQUE AMORIM, jornalista
  • PEDRO SERRANO, advogado
  • MINO CARTA, jornalista
  • LUIZ FERNANDO DE PAULA, economista
  • IRAN DO ESPÍRITO SANTOS, artista
  • HILDEGARD ANGEL, jornalista
  • PEDRO PAULO ZALUTH BASTOS, economista
  • SEBASTIÃO VELASCO E CRUZ, cientista político
  • MARCIO POCHMANN, economista
  • LUÍS AUGUSTO FISCHER, professor de literatura
  • MARIA AUXILIADORA ARANTES, psicanalista
  • ELEUTÉRIO PRADO, economista
  • HÉLIO CAMPOS MELLO, jornalista
  • ENY MOREIRA, advogada
  • NELSON MARCONI, economista
  • SÉRGIO MAMBERTI, ator
  • JOSÉ CARLOS GUEDES, psicanalista
  • JOÃO SICSÚ, economista
  • RAFAEL VALIM, advogado
  • MARCOS GALLON, curador
  • MARIA RITA LOUREIRO, socióloga
  • ANTÔNIO CORRÊA DE LACERDA, economista
  • LADISLAU DOWBOR, economista
  • CLEMENTE LÚCIO, economista
  • ARTHUR CHIORO, médico
  • TELMA MARIA GONÇALVES MENICUCCI, cientista política
  • NEY MARINHO, psicanalista
  • FELIPE LOUREIRO, historiador
  • EUGÊNIA AUGUSTA GONZAGA, procuradora
  • CARLOS GADELHA, economista
  • PEDRO GOMES, psicanalista
  • CLAUDIO ACCURSO, economista
  • EDUARDO GUIMARÃES, jornalista
  • REINALDO GUIMARÃES, médico
  • CÍCERO ARAÚJO, cientista político
  • VICENTE AMORIM, cineasta
  • EMIR SADER, sociólogo
  • SÉRGIO MENDONÇA, economista
  • FERNANDA MARINHO, psicanalista
  • FÁBIO CYPRIANO, jornalista
  • VALESKA MARTINS, advogada
  • LAURA DA VEIGA, socióloga
  • JOÃO SETTE WHITAKER FERREIRA, urbanista
  • FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA DA SILVA, historiador
  • CRISTIANO ZANIN MARTINS, advogado
  • SÉRGIO BARBOSA DE ALMEIDA, engenheiro
  • FABIANO SANTOS, cientista político
  • NABIL ARAÚJO, professor de letras
  • MARIA NILZA CAMPOS, psicanalista
  • LEOPOLDO NOSEK, psicanalista
  • WILSON AMENDOEIRA, psicanalista
  • NILCE ARAVECCHIA BOTAS, arquiteta
  • PAULO TIMM, economista
  • MARIA DA GRAÇA PINTO BULHÕES, socióloga
  • OLÍMPIO CRUZ NETO, jornalista
  • RENATO RABELO, político
  • MAURÍCIO REINERT DO NASCIMENTO, administrador
  • ADHEMAR BAHADIAN, embaixador
  • ANGELO DEL VECCHIO, sociólogo
  • MARIA THERESA DA COSTA BARROS, psicóloga
  • GENTIL CORAZZA, economista
  • LUCIANA SANTOS, deputada
  • RICARDO AMARAL, jornalista
  • BENEDITO TADEU CÉSAR, economista
  • AÍRTON DOS SANTOS, economista
  • JANDIRA FEGHALI, deputada
  • LAURINDO LEAL FILHO, jornalista
  • ALEXANDRE ABDAL, sociólogo
  • LEONARDO FRANCISCHELLI, psicanalista
  • MARIO CANIVELLO, jornalista
  • MARIO RUY ZACOUTEGUY, economista
  • ANNE GUIMARÃES, cineasta
  • ROSÂNGELA RENNÓ, artista
  • EDUARDO FAGNANI, economista
  • REBECA SCHWARTZ, psicóloga
  • MOACIR DOS ANJOS, curador
  • REGINA GLORIA NUNES DE ANDRADE, psicóloga
  • RODRIGO VIANNA, jornalista
  • LUCAS JOSÉ DIB, cientista político
  • WILLIAM ANTONIO BORGES, administrador
  • PAULO NOGUEIRA, jornalista
  • OSWALDO DORETO CAMPANARI, médico
  • CARMEM DA COSTA BARROS, advogada
  • EDUARDO PLASTINO, consultor
  • ANA LILA LEJARRAGA, psicóloga
  • CASSIO SILVA MOREIRA, economista
  • MARIZE MUNIZ, jornalista
  • VALTON MIRANDA, psicanalista
  • MIGUEL DO ROSÁRIO, jornalista
  • HUMBERTO BARRIONUEVO FABRETTI, advogado
  • FABIAN DOMINGUES, economista
  • KIKO NOGUEIRA, jornalista
  • FANIA IZHAKI, psicóloga
  • CARLOS HENRIQUE HORN, economista
  • BETO ALMEIDA, jornalista
  • JOSÉ FRANCISCO SIQUEIRA NETO, advogado
  • PAULO SALVADOR, jornalista
  • WALTER NIQUE, economista
  • CLAUDIA GARCIA, psicóloga
  • LUIZ CARLOS AZENHA, jornalista
  • RICARDO DATHEIN, economista
  • ETZEL RITTER VON STOCKERT, matemático
  • ALBERTO PASSOS GUIMARÃES FILHO, físico
  • BERNARDO KUCINSKI, jornalista e escritor
  • DOM PEDRO CASALDÁLIGA, religioso
  • ENIO SQUEFF, artista plástico
  • FERNANDO CARDIM DE CARVALHO, economista
  • GABRIEL PRIOLLI, jornalista
  • GILBERTO MARINGONI, professor de relações internacionais
  • HAROLDO CERAVOLO SEREZA, jornalista e editor
  • HAROLDO LIMA, político e engenheiro
  • HAROLDO SABOIA, constituinte de 88, economista
  • AFRÂNIO GARCIA, cientista social
  • IGOR FELIPPE DOS SANTOS, jornalista
  • JOSÉ EDUARDO CASSIOLATO, economista
  • JOSÉ GERALDO COUTO, jornalista e tradutor
  • LISZT VIEIRA, advogado e professor universitário
  • LÚCIA MURAT, cineasta
  • LUIZ ANTONIO CINTRA, jornalista
  • LUIZ PINGUELLI ROSA, físico, professor universitário
  • MARCELO SEMIATZH, fisioterapeuta
  • MICHEL MISSE, sociólogo
  • ROGÉRIO SOTTILI, historiador
  • TONI VENTURI, cineasta
  • VLADIMIR SACCHETTA, jornalista
  • ADRIANO DIOGO, político
  • MARCELO AULER, jornalista
  • MARCOS COSTA LIMA, cientista político
  • RAUL PONT, historiador
  • DANILO ARAUJO FERNANDES, economista
  • DIEGO PANTASSO, cientista político
  • ENNO DAGOBERTO LIEDKE FILHO, sociólogo
  • JOÃO CARLOS COIMBRA, biólogo
  • JORGE VARASCHIN, economista
  • RUALDO MENEGAT, geólogo
  • PATRÍCIA BERTOLIN, professora universitária
  • MARISA SOARES GRASSI, procurador aposentada
  • MARIA ZOPPIROLLI, Advogada
  • MARIA DE LOURDES ROLLEMBERG MOLLO, economista
  • LUIZ ANTONIO TIMM GRASSI, engenheiro
  • LIÉGE GOUVÊIA, juíza
  • LUIZ JACOMINI, jornalista
  • LORENA HOLZMANN, socióloga
  • LUIZ ROBERTO PECOITS TARGA, economista
  • ANTONIO CARLOS DE LACERDA, economista
  • FRANCISCO WHITAKER, ativista social
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Os Dez Mandamentos Para Um Governante

Brasilia

Por Marcio Uno

Eis que te digo:

1- Nem pense em trair o discurso ético, moral e coerente, muito menos acusar veementemente os opositores partidários. Além de se ter uma ruptura com muitos fiéis do diretório, verá que só se perpetua no sistema com a renúncia dos princípios defendidos. Lembre-se da poetisa: “Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra”;

2 – Nunca opte em governar, preferencialmente, pelos pobres e os mais necessitados. Isso fomentará ódio à classe capitalista dominante, sendo estes os primeiros inimigos algozes conquistados;

3 – De modo algum introjete às práticas a lógica de que “se os governantes anteriores foram corruptos e lhes imperou a impunidade, por que agora seria diferente?” Utilizar-se de esquemas semelhantes de corrupção criados por governos passados com os mesmos pivôs (Marcos Valério e Alberto Youssef) e sofisticar as condutas, o grave erro será aparente;

4 – Não faça aliança com quem seus discursos de oposição eram ácidos muito menos com o maior partido do Congresso, ainda mais se o pacto for com o Belzebu, pai de todos. Pela troca dos desejos realizados, as chantagens serão permanentes e no momento mais crítico Mefistófeles pedirá alma a Fausto;

5 – Nem tente empoderar tampouco trazer ligeira autonomia às instituições federais. Não sancione leis como as da Ficha Limpa e da Delação Premiada. Coíba rigidamente as diversas Operações (Mensalão, Lava Jato, etc). Controle absolutamente a Controladoria Geral da União (CGU), a Polícia Federal (PF), o Tribunal de Contas da União (TCU), o Supremo Tribunal Federal (STF), o Ministério Público da União (MPU) e o Congresso Nacional. Aprenda que no jogo de xadrez o tiro não pode sair pela culatra;

6 – Jamais desagrade seu Vice e brigue com o Presidente da Câmara, ainda mais se ambos pertencerem à soberana sigla partidária. Imperdoável pecado!!! Carregue consigo o provérbio popular: “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”;

7 – Nunca peça o retorno de impostos (CPMF) mediante os quais tecia duras críticas. Não aumente a máquina pública e tenha como o estado mínimo e o neoliberalismo lema de suas bandeiras sólidas. Rediscuta o pacto federativo sem gerar desgastes com os Estados e Municípios. Não arroche o servidor público. Seja carismático, populista e não carregue a intransigência consigo;

8 – De forma alguma abra portas para uma grave crise econômica que traga como consequências a desvalorização cambial, o rebaixamento da nota de crédito pelas agências de classificação de risco de investimentos, a alta da inflação, da taxa dos juros e dos níveis de desemprego, pois além de ser a justificativa ideal para os inimigos acumulados até aqui, com o retrocesso social, nem mesmo aqueles beneficiados durante o Governo se lembrarão das conquistas passadas;

9 – Não incentive o presidencialismo de coalizão quando a relação com as lideranças das bases forem quebradas. Eu mesmo te orientei: “Nem só de Ministérios viverá o cão, mas de todo o trato político possível.” A ingenuidade e incompetência na articulação política não faz parte no mundo da perversidade. Preserve sempre o “bom trânsito” e a “boa comunicação” diante dos parlamentares (para bom entendedor, quatro aspas bastam);

10 – De jeito nenhum dê espaço para ser o sacrifício da depravação, o bode expiatório da vez. Diante das violações dos nove mandamentos acima, mesmo que todos os outros governantes cometam as tais acusações pelas quais te sentenciam, não terá força quando gritar que está diante de um golpe. E Já dizia as palavras sábias do mestre: “Agora, Inês é Morta!”.

Obedeça ao seu Deus e, então, governará pela eternidade. Shalom!!!

O Bem e os Barquinhos de Papel

barquinho de papel

Imagem Extraída de: http://portalcrescer.blogspot.com.br/2011/08/barquinho-de-papel.html

Por Marcio Uno

Muitas vezes o bem não vence o mal. Contudo, sempre convence…

…convence alguns homens e mulheres de que a honestidade, o caráter, a integridade são as maiores vitórias que se possa carregar consigo;

…convence não por resultados, discursos, arrogâncias e manipulações, e sim, pelo conteúdo, atitude, altivez e justiça;

…convence a ponto de indivíduos escolherem que entregar a própria vida em razão da dignidade é mais belo do que morrer com as mãos manchadas de iniquidade;

Leve, puro, sutil, refrescante, delicioso, sereno: o bem é como a brisa que sopra por sobre as águas do mar.

E assim, vai conduzindo tranquilamente as frágeis embarcações que almejam percorrer despretensiosamente pelo infinito horizonte do oceano.

Série 8 Anos do Caminhada: “Novos Horizontes” – Malu Rizardi

Novos-Horizontes

Imagem Extraída de http://nathyorkuteira.spaceblog.com.br/1476653/Novos-Horizontes

Por Malu Rizardi

Querido Márcio!!!

Quero parabenizá-lo por esses oito anos de CAMINHADA para realizar sua nobre MISSÃO de disseminar a paz e o amor a todos que se encontram sedentos por um mundo melhor, por meio das ótimas reflexões que disponibiliza em seu blog.

Gostaria de dedicar-lhe, com todo carinho, esse singelo poema, com muito desejo de que a vida lhe possibilite sempre novos e horizontes.

Novos Horizontes

Já estiveram

bem adiante,

já estiveram

muito distante.

A cada ano

que se inicia

idealizamos

novas perspectivas.

Mesmo os céticos

contam os dias.

Seja por

diminuírem a jornada.

Seja para

desenganarem o nada.

Todo desafio tem

um estilo próprio.

O nosso caminhar

não é nosso,

mas de cada

caminhante.

Qualquer itinerante

tem esperança

de encontrar

novos horizontes…

Abraços,

Malu Rizardi

O Encanto do Palhaço

malaImagem Extraída de: http://www.correrpelomundo.com.br/2011/04/fazendo-as-malas-para-correr/

Por Marcio Uno

A noite dava uma trégua. Os pequenos feixes de luz que percorriam pelo trailer no qual Armando tinha adentrado minutos antes, foram suficientes para que se conseguisse tirar a fantasia e a maquiagem e se despisse do personagem que tanto o sufocava há dias. A coragem suplantou todas as espécies de dissimulações.

Olhando ao espelho enquanto limpava os últimos traços de tinta sobre o rosto, lembrou do início da história nos picadeiros. Desde as trapalhadas cometidas pelo iniciante da arte até se tornar o profissional do riso. Voltou ao presente. As rugas que marcavam a pele, agora flácida, revelavam os anos percorridos e os poucos que ainda lhe restavam.

Por um instante passou-lhe na mente o espetáculo da vida. Questionou-se se tudo aquilo tinha o devido valor. Sabia quais eram os limites do palhaço. Lembrou-se do equilibrista que, lá do alto, percorre a linha tênue tentando encontrar a postura para atravessar ao outro lado. Identificou-se. Olhando para a grande mala, sussurrou: “Chegou, quero o equilíbrio”.

Com toda cautela para não fazer barulho e acordar os demais, levantou a pesada bagagem. Caminhou até diante da porta. Temeu e tremeu. Tentou chorar, mas as lágrimas eram suas grandes inimigas. Abriram-se os portões. Deu de cara com as pequenas chamas que alimentavam a decadente fogueira: lugar de histórias, causos, criatividades, coletividade e gargalhadas nas noites profundas.

Desceu seguramente pela escada. Sentiu os pés tocar sobre o solo de barro misturado com serragem. Aquele trajeto lhe era conhecido, atravessava costumeiramente ali para chegar nos bastidores. Já na cobertura, lustrava as botas sujas com a pequena toalha exclusiva para tal fim. Agora, apesar do trecho ser o de rotina, na bifurcação à frente escolheria pelo caminho desconhecido.

Tentou procurar ao redor dos reboques alguém que, porventura, estivesse o olhando ou passeando pelo terreno com insônia. Parou a respiração por segundos e fez silêncio. Somente escutou o galo cantando, o estalar das brasas, o vento frio passeando pelo vale descampado e o eco do apito do primeiro trem que logo mais prosseguiria a viagem. Este era o mesmo som que presenciou quando descia da estação anos atrás: cruel nostalgia.

O que lhe seria mais torturante viria adiante: recordou-se de que, quando moleque, sua genitora tinha-lhe inscrito no programa Circo-Escola da pequena cidade de Esperança para ser o encantador de ilusões e não de sorrisos. Não era religioso nem supersticioso, entretanto a crença carregada por décadas era a de que nunca seria realizado sem a benção maternal. A teimosia fazia questão de não lhe deixar sossegado.

E continuou: após suas apresentações, corria atrás das cortinas e através da fresta criada ficava extasiado com os truques do colega. Quantas vezes queria entrar novamente em cena para deixar o público boquiaberto com aqueles feitiços e, quem sabe, aproveitar para sumir com os perturbadores pensamentos que o atormentava. Virou-se para trás e avistou o abrigo do mágico pela última vez. Era manhã, porém tarde demais.

A poucos metros de deixar o chão de terra para pisar na rodovia, sentiu alguém o seguindo e acompanhando os passos arrastados e tristes. Virou-se bruscamente e agachou-se para abraçar e despedir-se de Fofão, o velho cachorro que convivia com a trupe circense. Pensou em mudar o nome do animal para Baleia, porém lembrou-se de que apesar do vira-lata ser mais humano que os demais, as vidas secas não era encenada em um sertão geográfico.

Quando Armando colocou o primeiro pé no asfalto ainda frio, o cão o deixou prosseguir. Pensou: “Até o animal sabe qual seu limite. Não deveria eu conhecer os meus?” Uma fotografia pousou-lhe na mente. “Ah, e o malabarista, que sabedoria!!!” Queria se apropriar do tempo de jogar tudo para cima, respirar e quando as coisas estivessem para se espatifar no chão, segurar um por um com naturalidade. E assim, recomeçar o ciclo.

As risadas provocadas, o carinho da plateia, os minutos de atenção exclusiva já não faziam mais parte do currículo?

Foi então que sentiu, atrás de seu corpo, as mãos de alguém encobrindo seus olhos. Apalpou-as e não acreditou que ela estivesse aparecido. Na verdade, ela estava o perseguindo por toda noite e não foi sequer notada. Trazia trajes de arlequim, com nariz de palhaço, pintura na face e uma peruca maluca que tinha ganhado de Armando em um remoto dia do amigo. Do lado da formosa mulher, uma bolsa de roupas. Ao fundo, avistou Fofão abanando o rabo e as bandeirinhas tremulando por cima da lona.

Apesar dos problemas, transtornos e equívocos, ainda alguém apostava na reconstrução. Ele sorriu por dentro, algo que não lhe acontecia há muito tempo. Tinha a consciência de que também necessitava receber cuidados, abrigo, afagos. O espanto lhe fez vida e sabia que, a partir de então, estaria acompanhado de amor, de sentido, de satisfação, de Felicidade.

Esta o ajudou segurando uma alça da bagagem ainda que bem ciente do conteúdo carregado. Os primeiros passos dados na estrada a quatro pés eram iluminados pelo maravilhoso nascente do sol ao horizonte. Caminharam juntos por muitas léguas a ponto de perderem a razão da distância. Dividiu-se a carga. Felicidade com Armando; Armando com Felicidade.

Era uma vez o encanto do palhaço…

Danço, Logo Existo

IMG_20150419_223949043Por Marcio Uno

Gosto de dançar na vida. Aliás, não há problemas se alguém não tem desejo em ser levado pela música, pois esta mesma se encarrega de ditar ritmos. A criação é a mãe que vai parindo aos sons, em vários movimentos, ajudando suas criaturas a darem os primeiros passos nas pistas do salão.

Qual brasileiro já não teve de entrar na roda de samba e acompanhar frases e refrões melódicos juntamente com os batuques das dificuldades enfrentadas? E quase sempre sem carnavais, folias, máscaras, fantasias. É na palma da mão, com passadas alternadas, sincopado ou não, quer seja o samba-rock, sambalanço, de gafieira, do morro ou de raiz, todos com a malandragem e improvisação da vida aos pés, fazendo jus a origem sofredora da agitação.

Há fases em que a rebeldia e protesto se fazem necessários no caminho. Com melodias estreitas, sons amplificados, contratempo acentuado, utilizo-me do rock para demonstrar o descontentamento com o “status quo” e balançar as estruturas ultrapassadas. Incorpo o heavy metal, pop rock, punk rock, e com o corpo frenético, pulo, grito e uso o bate-cabeça como forma de demonstrar atitudes e inquietações frente à realidade.

Essas três décadas de história se resumem ao meu envolvimento contínuo com o tango. Na forma binária e com o compasso de dois por quatro, vou traçando as pernas no mais confuso dos estilos, de modo a não me deixar tropeçar no palco das afetividades. Entretanto, muitas são as vezes que a queda se torna inevitável, devido ao corpo flácido e embriagado. Os pensamentos tristes e dramáticos são carregados de supostos antagonismos como a paixão, a sexualidade e a agressividade. Milongas!!!

Ah, e aqueles dias que escolho tocar na vitrola o balanço latino-americano, alegre e sensual da salsa? Os ritmos de percussão rápidos e complicados, de composição quaternária, com a miscelânea do mambo, da rumba e do cha cha cha, conotam a escolha da sabedoria para regir as pisadas. Sapore, sapiência, dizia o cozinheiro Rubem Alves. Bem quero é dar pitadas de sal e jogar belo de um tempero na vida.

São nos momentos de dores, perseguições, lutas e angústias, que desabafo todos os sentimentos através da guitarra aguda, dos adufes, dos penteados, das roupas chamativas e da castanhola. Invoco a divindade mediante o flamenco espanhol e com movimentos circulares dos braços e apontado-os para o céu e para a terra, demonstro minha oração por gratidão, auxílio e abrigo.

A tarantela é a dança que mais me apetece. Através do círculo, da troca de casais e da junção de outras pessoas, os movimentos em nome do coletivismo, dos encontros e desencontros, das amizades, da família e do companheirismo, são os que rompem com os ciclos da morte e solidão. Cada gesto efetuado faz-me recordar que ser humano é compartilhar.

A exigência dos músculos, os rodopios e malabarismos de um dos patrimônios da humanidade, o frevo,  simbolizam muito bem o cotidiano das metrópoles: agitação, rotinas extremamente aceleradas, eferverscência. E não há refresco para o frevo de rua, de bloco ou de canção, pois o guarda-chuva é a arma que combate os rivais arrefecedores.

Ainda sou um aprendiz da valsa, seja a vienense ou a inglesa. Com extremas dificuldades, tento acompanhar o compasso de três tempos, as oscilações do corpo no vaivém e das voltas executadas. O que se parece tão simples não obedece as ações corporais: comemorar os momentos únicos e festejar no ápice da festa com uma alegre orquestra, deixando de lado os medos, traumas, sofrimentos; permitir-se ser feliz.

Embora seja linda a apresentação grupal de sincronismos e intensidades de notas emitidas com o sapateado, gosto muito do tap dance solitário. Aprecio escutar os ruídos da alma, a deixar que o corpo produza nos solados de madeira coreografias agradáveis ao coração, a meditar nas vibrações que buscam a leveza e elegância dos passos marcados no chão.

E quando se aproximar da meia-noite, antes que todo o brilho se acabe, gostaria de bailar pela celebração da vida e a recepção da morte como as tribos indígenas da Amazônia. Nas badaladas da torre do relógio quero ouvir a música da metamorfose ecoar pela nova estrada.